Brasília, 31 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso chamou hoje os ministros da Previdência Social, Waldeck Ornélas, e da Saúde, José Serra, para pôr fim à briga pública entre eles. Ornélas e Serra vinham trocando farpas por conta da isenção previdenciária a entidades filantrópicas. Hoje, em entrevista gravada à tarde para a TV Bandeirantes, Fernando Henrique disse que, se não fossem "ótimos ministros", Serra e Ornélas teriam sido demitidos por ter tratado em público questões de governo.
Na semana passada, o ministro da Previdência reagiu com vigor às declarações do colega da saúde, que o acusara de praticar "sadismo" social por rever a isenção previdenciária para entidades filantrópicas, o que levaria, segundo Serra, ao fechamento de mais de 2 mil leitos destinados à população carente. Em resposta, o ministro pefelista qualificou o colega tucano como "desagregador e egocêntrico", além de afirmar que Serra não conhece as peculiaridades da área. O entrevero acabou tornando a semana de Fernando Henrique ainda mais tensa, depois de ter visto o nome envolvido no caso do grampo do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Soicial (BNDES).
Além da bronca, Fernando Henrique selou hoje um acordo para solucionar o impasse criado em torno da revisão da concessão de isenção previdenciária para entidades filantrópicas. Ficou decidido que nada muda na lei da filantropia, mas, com base no levantamento que a Previdência Social fará da situação de cada entidade, o Tesouro Nacional poderá vir a custear os serviços de alta complexidade praticados gratuitamente aos carentes pelos hospitais não-conveniados ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Segundo fontes no Palácio do Planalto, os dois ministros saíram satisfeitos da reunião. Assessores de Ornélas estavam seguros de que ele saíra vitorioso. "A decisão, apontada pelo presidente, foi a que o ministro Ornélas vinha defendendo desde o início", disse uma fonte. Segundo esse colaborador do governo
o ministro da Previdência queria uma decisão semelhante à adotada para a área educacional e que tirasse da pasta o peso da concessão da isenção previdenciária das entidades filantrópicas.
Assessores de Ornélas garantem ter sido este o resultado final da conversa de hoje. As entidades que ficarem fora da isenção pagarão a contribuição previdenciária, ficando a cargo do Tesouro Nacional a cobertura do serviço prestado aos usuários carentes. "Isso moraliza a filantropia a acaba com a farra do subsídio cruzado", declarou Ornélas.
Ainda irritado com a repercussão negativa da discussão entre Serra e Ornélas, que acabou se transformando em mais uma crise política dentro da base de sustentação, voltando a opor PSDB e PFL, o presidente fez chegar a todos os integrantes da equipe o mesmo aviso: divergências técnicas que, eventualmente, venham a ocorrer dentro do governo, "têm de ser discutidas e resolvidas internamente". Fernando Henrique havia falado com os dois ministros por telefone e, com a reunião no Planalto, reservada, tentou passar o exemplo da postura que pretende exigir dos auxiliares a partir de agora.
Hoje, o presidente evitou comentar em público o episódio das filantrópicas. Ele recebeu Serra para a solenidade em comemoração ao Dia Internacional contra o Tabaco, no início da tarde, mas não fez qualquer manifestação pública do desagrado e ainda se divertiu com as brincadeiras do ministro tucano.
À noite, o presidente informou, por intermédio do porta-voz Georges Lamazire que a briga entre os dois ministros era um assunto "interno" do governo e encerrado, e confirmou a criação de um grupo de trabalho, a ser chefiado pelos dois ministros, com o objetivo de encontrar uma solução para a questão.

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