FHC pode antecipar para esta semana anúncio da reforma ministerial
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sábado, 03 de julho de 1999
Por Gerson Camarotti 
Brasília, 04 (AE) - Preocupado com o aumento da pressão dos partidos aliados, o presidente Fernando Henrique Cardoso poderá antecipar para esta semana o anúncio da reforma ministerial que vem desenhando há mais de um mês. O timing das mudanças, porém, divide os colaboradores mais próximos ao presidente. Interlocutores que estiveram com Fernando Henrique este fim de semana apostam que a nova composição do governo sairá logo para frear o aumento da pressão dos partidos aliados. Colaboradores próximos ao presidente, entretanto, garantem que não há data fixada para o anúncio, nem pressa.
Com a reforma, o presidente espera recuperar a autoridade sobre os partidos que dão sustentação ao governo e melhorar o desempenho da ação administrativa, dando mais eficácia à gestão. Fernando Henrique está preocupado, neste momento, em começar de fato o segundo mandato, prejudicado nesses seis primeiros meses por uma avalanche de crises. "Ele não soube lidar com as críticas, com a falta de popularidade e a crise econômica", avalia um influente ministro.
Segundo ele, Fernando Henrique recuperou o que considera fundamental para fazer a administração: o entusiasmo pelo ato de governar e a disposição para usar o poder da caneta. Além do bom humor que voltou a exibir, dois exemplos são apontados por interlocutores com trânsito no Planalto para justificar a recuperação do ânimo presidencial.
O mais significativo, apontam, aconteceu na semana passada, quando Fernando Henrique mandou demitir um afilhado político do vice-governador de Minas Gerais, Newton Cardoso (PMDB), em resposta às críticas do político peemedebista ao governo dele. Outra atitude surpreendente, acrescentam, foi a rápida demissão de toda a diretoria do Banespa, pelo questionamento na Justiça da cobrança da Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira (CPMF).
"Há um mês, ele jamais teria tomado uma atitude dessas sem fazer uma dezena de consultas", avalia um assessor próximo ao presidente, lembrando a onda de insegurança e desmotivação que abalou Fernando Henrique durante o primeiro semestre. Disposto a recuperar a autoridade, o presidente trabalha com dois modelos de reforma ministerial.
Se ficar convencido que as várias demonstrações de poder que vem fazendo surtiram o efeito desejado, Fernando Henrique poderá executar mudança mais restrita. Neste caso, apenas seriam extintas as seis secretarias de Estado - criadas no início desse ano como prêmio de consolação para colaboradores do governo - e feitas modificações pontuais no comando de algumas pastas.
Um dos candidatos mais fortes para cair é o ministro do Desenvolvimento, Celso Lafer, que poderá ser substituído pelo das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga. Os boatos sobre essa mudança começaram a ganhar consistência no fim da semana passada, quando o presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDES), José Pio Borges, fez uma demorada visita ao gabinete do ministro.
Para o lugar de Veiga iria o secretário de Comunicação do governo, Andrea Matarazzo, cotado para o cargo durante a formação da atual equipe.
Outra vaga que seria aberta com essa dança de cadeiras seria a da articulação política, acumulada por Veiga. Nesse caso
o presidente convidaria um político neutro e experiente para ocupar o cargo no Planalto. O nome dos sonhos de Fernando Henrique ainda é o do presidente da Itaipu Binacional, Euclides Scalco, que declinou dos convites feitos desde janeiro.
Coordenador político da campanha pela reeleição, Scalco conseguiu manter coesos os partidos aliados e tem trânsito livre pela Esplanada. Também se cogitou o nome do ex-senador José Richa, que esteve recentemente no Palácio da Alvorada para uma conversa com o Fernando Henrique. O nome de Richa tem o respaldo do governador de São Paulo, Mário Covas (PSDB), um dos mais influentes interlocutores do presidente.
O outro cenário é diretamente influenciado pelo grau da disposição do presidente em desfrutar do poder da caneta, o que poderá o levar a um recomeço formal do governo, com uma reforma mais abrangente, como pregam o PSDB e setores do PFL. Resta saber se Fernando Henrique está mesmo disposto a enfrentar a pressão dos partidos aliados, que na semana passada engrossaram a voz.
Além do PMDB e do PPB, que cobram a manutenção dos espaços no governo, o presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (BA), principal cacique do PFL, deixou bem claro o ponto de vista quando disse que "é mais racional fazer uma reforma menor, já que o próprio presidente está contente com os seus ministros". "Mexer para quê?", questionou ACM. "Ninguém pode impor condições ao presidente", disse Veiga, rebatendo as insinuações de líderes partidários, que exigem a manutenção dos mesmos nomes no governo.
Preocupados em evitar surpresas desagradáveis, alguns partidos da base do governo montaram um esquema de plantão em Brasília, durante o recesso parlamentar, para pressionar e vigiar de perto todos os passos do presidente. Para manter o ministro da Agricultura, Francisco Turra, o PPB escalou vários deputados da executiva nacional do partido para visitar o Planalto enquanto o presidente não anuncia a decisão.
"Fernando Henrique já assegurou a permanência de Turra, até porque o PPB tem sido um partido que não tem dado trabalho ao governo", garante o líder do PPB na Câmara, Odelmo Leão (MG). O PPB é um aliado estratégico para o Planalto, pois sem espaço no governo ficaria ainda mais esvaziado. O temor no Planalto é que, com isso, as cinco dezenas de deputados pepebistas venham a migrar para o PMDB ou o PFL, fortalecendo ainda mais esses dois partidos, o que não interessa ao presidente.
A mesma estratégia de pressão foi montada pelo PMDB para evitar qualquer tentativa de excluir do governo o ministro Justiça, Renan Calheiros. Para isso, o próprio presidente do partido, senador Jader Barbalho (PA), ficará em contato permanente com Fernando Henrique e continuará vindo a Brasília, mesmo durante as férias do Congresso.
"Se o presidente realizar uma reforma ampla perde a credibilidade, já que ele tem repetido diversas vezes que não fará nenhuma grande mudança", avalia o líder do PMDB na Câmara, Geddel Vieira Lima (BA). "O Renan não sairá do governo; afinal, onde o presidente encontraria um ministro da Justiça com uma produção de tantos fatos positivos como ele?", questiona.
Circula com força por Brasília rumores de que o presidente substituiria Calheiros - desgastado pela disputa em torno do comando da Polícia Federal (PF) e das políticas de combate ao narcotráfico - por um jurista conceituado e com bom trânsito político.
Todas as eventuais mudanças, entretanto, serão feitas pelo presidente com o cuidado de evitar novo desgaste com os aliados políticos. "Os três partidos da base aliada estão umbilicalmente ligados", avisa o ministros dos Transportes, Eliseu Padilha. "O corte de oxigênio de um racionalizará o oxigênio dos demais, o que poderá matar todo mundo", adverte, alertando para os riscos de 2002, quando será disputada a sucessão de Fernando Henrique.


