Bonn, 14 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje ter pedido rigor na apuração das denúncias de irregularidades e corrupção no Banco Central em favorecimento ao banco Marka, e que a demissão do ex-presidente indicado do BC, Francisco Lopes, foi motivada por razões operacionais. Lopes teve o nome aprovado pelo Senado, mas foi exonerado do Banco Central antes de assumir o cargo, e tem agora o seu nome envolvido em supostas operações irregulares realizadas pelo BC.
"Deixa eu esclarecer isso de uma vez por todas: já ouvi rumores, mas a mim nada jamais foi dito que implicasse o doutor Chico Lopes no que quer que fosse", disse o presidente em Bonn, capital da Alemanha, onde chegou de manhã.
Ele disse, ainda, que sugeriu a prisão de Salvatore Cacciola
ex-controlador do banco Marka, para que ele confirmasse as informações veiculadas pela imprensa, de que o banco pagaria propina a funcionários do BC em troca de informações privilegiadas. "Eu determinei ao ministro da Justiça (Renan Calheiros) que chamasse o presidente (do Marka), a pessoa do banco Marka e que, se fosse o caso, o prendesse para que desse declarações", informou o presidente. "Agora, simplesmente ter o rumor e depois sumir, isso não", emendou. "Acho que nesse caso prende, prende, para esclarecer".
O presidente adiantou que já orientou autoridades do governo a prestarem as informações necessárias sobre o caso. "A obrigação do Banco Central é ser transparente." Segundo ele, se forem confirmadas as denúncias, as autoridades brasileiras envolvidas também devem ser processadas e presas.
O presidente também disse "nunca" ter ouvido falar do banco Marka e criticou a divulgação de informações não confirmadas, prática que não merece punição no Brasil. "Até hoje eu protesto contra o fato de não se pôr na cadeia os que fizeram o dossiê Cayman: foi divulgado amplamente e é uma falsidade, uma chantagem contra ministros e o presidente da República", afirmou Fernando Henrique, referindo-se ao conjunto de documentos que o envolve - junto com outros políticos - a uma suposta empresa instalada em um paraíso fiscal. "Isso não pode ficar assim, havendo provas, se leva aos tribunais e se prende, mas tem que provar, tem que mostrar."
Fernando Henrique disse que a demissão de Francisco Lopes da presidência do Banco Central foi motivada exclusivamente pelo fracasso do alargamento da banda cambial em janeiro, que culminou na antecipação do regime de livre flutuação do câmbio, primeira etapa da crise que culminou na desvalorização da moeda nacional."O doutor Chico Lopes deixou de ser o presidente do Banco Central não porque soubesse que tivesse havido qualquer coisa com o banco tal ou qual. Eu não sabia", frisou Fernando Henrique. "Naquele momento, achei que precisávamos operar mais rápido, foi uma questão operacional."
O presidente contou que a decisão foi tomada em conjunto com o ministro da Fazenda, Pedro Malan, e confirmou o pedido de demissão conjunta do ministro e de Chico Lopes, em razão da corrida aos bancos que abalou a economia brasileira no dia 29 de janeiro. "Foi uma corrida, um pânico forte, e nessa hora o governo tem de agir com mais firmeza", disse o presidente. "Foi essa a razão, não tem nada a ver com quaisquer informações relativas a decisões que pudessem envolver o doutor Chico Lopes". O presidente frisou não ter elementos, "nem nos contatos que tive com ele nem por terceiros", que colocasse sob suspeição a conduta de Francisco Lopes no Banco Central.

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