FHC ordena fechamento de fronteira com o Paraguai para evitar fuga de assassinos para o Brasil
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Por Hugo Marques, especial para a AE 
Brasília, 23 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso determinou nesta terça-feira (23) o fechamento da fronteira com o Paraguai, com o objetivo de evitar a fuga para o Brasil dos assassinos do vice-presidente paraguaio Luis María Argaña Ferraro.
A medida atende a um pedido feito pelo próprio presidente do Paraguai, Raúl Cubas Grau, em conversa telefônica com Fernando Henrique. Nas notas divulgadas pelos governos de Brasil e Paraguai, ficou evidente a preocupação com a democracia no país.
Na conversa com o Raúl Cubas, o presidente brasileiro expressou-lhe seus sentimentos de pesar pelo ocorrido. Segundo nota do Ministério das Relações Exteriores, Fernando Henrique, a pedido de Cubas, determinou providências junto às autoridades militares e policiais no território brasileiro "para o efetivo fechamento da fronteira entre os dois países", "com vistas a facilitar a ação das autoridades paraguais na identificação e captura dos responsáveis pelo atentado".
O governo brasileiro, segundo a nota do Ministério das Relações Exteriores, "confia que o governo paraguaio tomará todas as medidas" para levar à Justiça "os culpados por este bárbaro crime" e para "assegurar a ordem em seu território".
O Brasil, segundo a nota, confia que o Paraguai supere esse "triste episódio" sem que sejam afetadas a segurança da população, "a paz social e a ordem constitucional vigente".
Na nota, o governo brasileiro "insta em consequência o governo, os demais poderes da República e todos os segmentos da sociedade paraguaia a atuar com serenidade, moderação e espírito democrático". Na avaliação do governo brasileiro, o assassinato do vice-presidente do Paraguai "representa uma nódoa no esforço do povo paraguaio para consolidar a democracia".
Em nota distribuída hoje à população, o presidente do Paraguai informou que determinara o fechamento das fronteiras e a investigação para punir os assassinos. Raúl Cubas convocou todos os cidadãos paraguaios e os responsáveis por instituições públicas e privadas a trabalharem "com dedicação pela paz do Paraguai". Cubas disse em seu comunicado que este é um momento refexão profunda e serena. O presidente paraguaio conclamou aos dirigentes políticos e parlamentares que coloquem as necessidades do povo paraguaio acima de ocasionais interesses pessoais e de grupos.
A morte de Argaña, segundo Cubas, deve servir de marco para relações frutíferas em torno de uma "agenda pública" que resolva com eficácia a "delicada" situação econômica e social enfrentada pelo Paraguai. O presidente pediu em seu comunicado que os paraguaios ajam com "cordialidade e moderação", em um momento tão difícil, preservando os valores republicanos e democráticos.
Apesar da evidente preocupação com a democracia no Paraguai, os diplomatas preferiram não especular sobre a possibilidade de golpe. O próprio Cubas, no entanto, vinha dizendo em público que teria conseguido superar as dificuldades institucionais em seu País.
A situação política no Paraguai chegou a afetar no início deste ano o aprofundamento das relações entre os dois países. Exemplo disso foi o cancelamento de viagem que o ministro da Justiça, Renan Calheiros, faria ao país, em fevereiro, mas que cancelou por entender que não havia "clima".
Hoje, a Embaixada do Paraguai no Brasil divulgou comunicado reafirmando que o presidente Cubas determinara o fechamento das fronteiras e uma "intensa" investigação para chegar aos culpados pelo assassinato. Foi decretado luto oficial de 15 dias no Paraguai. Argaña foi deputado, presidente da Corte Suprema de Justiça e ministro de Relações Exteriores, antes de ser eleito vice-presidente.
O embaixador do Paraguai no Brasil, Luis Gonzalez, disse hoje à Agência Estado que não foi anunciada nenhum tipo de medida excepcional em seu país, que fira a Constituição, a partir da morte do vice-presidente. Luiz Gonzales disse que o assassinato de Argaña é um fato "inesperado". O embaixador afirmou que assassinatos políticos não fazem parte do "costume" paraguaio. Luis Gonzales disse que o Paraguai vai continuar sendo um país democrático.


