FHC muda decreto e Darly perde indulto
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de dezembro de 1998
Agência Estado 
O governo modificou ontem o decreto nº 2.838 de novembro deste ano, para impedir que o fazendeiro Darly Alves da Silva, condenado a 19 anos de prisão como mandante da morte do sindicalista Chico Mendes, tenha direito ao indulto natalino. O Ministério da Justiça acrescentou um parágrafo onde proíbe a concessão dos benefícios aos presos que tenham fugido durante o cumprimento da pena, como é o caso do fazendeiro e seu filho Darci Alves Pereira, também condenado a 19 anos por ter assassinado o sindicalista.
Na noite de anteontem, o Conselho Penitenciário do Distrito Federal negou, por unanimidade, o pedido de indulto feito por Darly Silva. Os conselheiros concluíram que o crime praticado pelo fazendeiro é considerado hediondo, e negaram que tivessem agido sob pressão. Ninguém nos procurou para pedir qualquer coisa, disse o advogado Pedro Arruda, presidente do conselho. Jamais decidimos por pressão, acrescentou.
Na quinta-feira, após saber que Darly Silva teria direito ao indulto natalino, o ministro da Justiça, Renan Calheiros, conversou com o presidente Fernando Henrique Cardoso e ameaçou revogar o decreto presidencial que concedia o benefício ao fazendeiro. No final da tarde, o porta-voz do Palácio do Planalto, embaixador Sérgio Amaral, confirmou que Fernando Henrique pedira à sua assessoria jurídica que modificasse o decreto para evitar a saída do fazendeiro, o que aconteceu ontem.
A alteração feita por determinação do presidente tira o direito de indulto aos presos que tiveram fatos desabonadores durante o cumprimento da pena. No decreto foram acrescidas proibições aos detentos que provocaram rebeliões, tentativa de fuga ou fuga consumada. Darly e Darci estão enquadrados nos dois últimos casos.
O caso agora está nas mãos do juiz da Vara de Execuções Penais, Everardo Alves Ribeiro, que ainda vai ouvir o Ministério Público do DF e depois decidir sobre o destino do fazendeiro. Depois disso, Ribeiro ainda analisará os relatórios sobre a conduta do preso e depois concluirá se Darly Silva tem direito ou não ao indulto. Normalmente o juiz acata o que o conselho decidir, observa o procurador da República no DF, José Elaeres Marques Teixeira, um dos conselheiros.
Se não conseguir o indulto, o fazendeiro deverá requerer progressão de pena, assim como seu filho, Darci Alves Pereira, condenado a 19 anos como autor do assassinato de Chico Mendes. Por ter cumprido um terço da pena - eles foram presos em janeiro de 1989, ficaram foragidos três anos e foram recapturados em agosto de 1996 - poderiam adquirir o regime semi-aberto. Já existe recurso neste sentido para beneficiar o Darci, confirma o juiz da Vara de Execuções.
Presos na Penitenciária da Papuda, em Brasília, Darci e Darly são considerados hoje os detentos mais importantes do País, já que a morte de Chico Mendes causou uma das maiores repercussões no exterior. A movimentação do governo para impedir o indulto foi uma forma de evitar que o caso ganhasse exploração internacional, já que no dia 22 deste mês completa dez anos que o sindicalista foi assassinado em Xapuri, no Acre.
O secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori, garantiu que a alteração no texto sobre o indulto natalino não prejudicará presos que tenham direito ao benefício. É perfeitamente possível pinçar os casos que não merecem, disse. Segundo Gregori, não houve falha de avaliação do governo quando, inicialmente, anunciou que concederia o indulto a todos. Isso é assim mesmo, tomamos medidas coletivas, pensadas de forma genérica, para depois particularizar.
Ontem, Gregori foi homenageado por amigos que o parabenizaram pelo prêmio de direitos humanos concedido a ele pela Organização das Nações Unidas (ONU), no último dia 10. O prêmio foi dado como um incentivo ao governo federal e à sociedade, para que continuem o esforço para superar os problemas de direitos humanos que ainda existem no País, disse.


