O presidente Fernando Henrique Cardoso ignorou os conselhos do Itamaraty de manter-se longe do líder espiriritual do Tibet, Dalai Lama Tenzin Gyatso, para não prejudicar as relações diplomáticas com a China, e foi a seu encontro na residência do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA), ontem em Brasília. Na conversa de 20 minutos, o presidente admitiu que o processo para reduzir as diferenças sociais no País é lento, apesar do empenho do governo em alcançar essa meta. Falou também sobre reforma agrária e de melhorias obtidas na área social.
O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) tentou induzir Fernando Henrique a falar da posição brasileira com relação à libertação do Tibet, invadido pela China há 49 anos, mas ele desconversou. O presidente alegou que deveria se manter dentro dos limites de compromissos internacionais assumidos pelo Brasil. Mas que a sua presença alí tinha um significado especial.
Tenzin Gyatso recebeu, ontem pela manhã, na Universidade de Brasília (UnB), o título de honoris causa. O líder religioso falou para uma platéia de quase cinco mil pessoas, segundo estimativas da Polícia Militar. Falando em inglês, o monge era aplaudido a cada conclusão de uma idéia, ‘‘simples e óbvia’’, como comentou o presidente do rabinato da Congregação Israelita Paulista, Henry Sobel. ‘‘Todos trazemos o desejo de ser feliz e superar o sofrimento’’, disse, comentando ainda que a paz de espírito ocorre apenas no nível mental e que dinheiro nenhum pode comprar.
Para o monge, a ‘‘paz não é a ausência de violência’’. ‘‘Se fosse assim, poderíamos dizer que uma pessoa de braços cruzados, indiferente, estaria praticando a paz. Mas a paz é o reflexo de atitude interna de compaixão’’, defendeu. Conhecido por defender a não-violência, o Dalai Lama ensinou que o maior obstáculo para se seguir esse caminho é o ódio que cada um traz no coração. ‘‘O ódio faz o homem pegar em armas e destruir’’.
Ele contou que quando era pequeno ficava fascinado com os uniformes e armas do Exército. Mas cresceu e descobriu que por mais ‘‘interessante e engenhosa’’ a arma somente serve para matar. ‘‘Uma pessoa boa é a que traz calor no coração’’. Na sua passagem pela UnB, o líder tibetano deixou a imagem de um moleque travesso e de um homem simples que as pessoas querem tocar e abraçar.
‘‘O senhor não pára de rir’’, admirou-se Marco Terena, chefe do comitê tribal e articulador dos interesses indígenas junto à Organização das Nações Unidas (ONU) e um dos representantes das entidades religiosas a homenagear o Dalai na UnB. Terena convidou o monge para voltar ao Brasil no próximo ano e participar do encontro que os índios farão paralelamente à comemoração dos 500 anos de descobrimento. O líder aceitou o convite.

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