FHC fala de juro e arrisca avanços obtidos em três semanas
São Paulo, 10 (AE) - O governo FHC gosta de perigo. Nas últimas três semanas confirmou grandes avanços na coordenação política, na unificação do discurso, e, sobretudo, na queda-de-braço travada entre o mercado financeiro e o Banco Central. O dólar já acumula queda de 2,24% em seis dias de negócios em setembro, multiplicando o prejuízo de bancos que tenham eventualmente reforçado posições compradas no final de agosto; a remuneração máxima das Letras do Tesouro Nacional, vendidas em leilão primário, teve o prêmio sobre a taxa Over/Selic reduzido de 2,6% para 1,6% numa única tacada; a Bolsa de Valores de São Paulo, além de retomar a alta interrompida há dois dias, negociou pela segunda vez em seis pregões mais de US$ 320 milhões - cifra alcançada apenas duas vezes em agosto inteiro, uma delas em dia de vencimento de contratos de opções; títulos da dívida externa brasileira ("Bradies") continuam sendo transacionados com "spreads" declinantes sobre a remuneração dos títulos do Tesouro norte-americano; e o Banco Central foi bem sucedido ao lançar 300 milhões de bônus denominados em euros, dando mais um passo na construção da curva de rendimentos de títulos soberanos neste mercado que é tido como importante fonte de recursos para o setor privado brasileiro.
Esta mudança de cenário merece comemoração, mas ela só vai ocorrer se o governo falar menos. Nesta quinta-feira, o presidente Fernando Henrique Cardoso teve uma recaída e cometeu um deslize que atrapalha a rotina da equipe econômica e confunde um mercado que passou a jogar a seu favor: voltou a falar sobre taxa de juro.
Após uma bateria de negativas disparada pelo primeiro escalão na virada do mês - quando a proposta orçamentária do ano 2000 foi enviada ao Congresso trazendo uma projeção de juros - ontem o presidente confirmou que os juros nominais no ano que vem serão exatamente 13,5%, que constam do Orçamento da União. O presidente da Comissão de Assuntos Econômicos (CAE), senador Ney Suassuna, foi portador da boa nova durante o dia. No início da noite, o porta-voz do Palácio do Planalto, Georges Lamaziere, reafirmou a sinalização, relata a jornalista Tânia Monteiro. Este dado teria importância menor, se a atividade do mercado financeiro não estivesse ancorada basicamente na antecipação de expectativas, e se as expectativas não interferissem na condução da política monetária.
Mas não é assim que o mercado funciona e a indicação do presidente FHC já está anotada. Existe a possibilidade , porém, de o presidente ter ousado um lance político e, neste caso, o resultado pode ter outra leitura e impacto sobre o mercado financeiro, levando-se em conta uma pesquisa em andamento do Instituto Brasileiro de Estudos Políticos (IBEP) junto ao Congresso Nacional. O cientista político Walder de Góes - responsável pelo serviço especial Análise Política OnLine distribuído pela AE-Broadcast - comenta que a pesquisa, em seus resultados preliminares, destaca a redução dos juros como opção preferida entre os parlamentares brasileiros para a política econômica. Mais até do que um programa agressivo de investimentos públicos, com inevitável pressão sobre os recursos orçamentários. Até ontem, 28% dos congressistas consultados consideram a redução do juro prioridade nacional, enquanto 22% são favoráveis à manutenção do curso de austeridade fiscal.
"Os congressistas acompanham, portanto, com especial atenção a atuação do Banco Central, revelando certa exasperação com os anos de política monetária apertada", afirma Walder de Góes. A exemplo dos parlamentares, o mercado também está de olho no Banco Central e na retórica de toda a equipe econômica, que recepciona, nesta semana, a missão do FMI que está no País para iniciar a quarta revisão do acordo de ajuda financeira internacional ao Brasil.
A jornalista Marcia Pinheiro lembra no Recado dos Editores, que o governo diz que não haverá necessidade de revisão das metas negociadas com o Fundo, mas apenas de alguns parâmetros. Entre eles, disse o secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda Edward Amadeo ao jornalista Renato Andrade, está a balança comercial, que exigirá revisão mais que previsível, uma vez que ninguém no mercado, ou fora dele, ainda acredita no superávit de US$ 1,5 bilhão projetado durante a última revisão do acordo. Amadeo afirma que a experiência de outros países, cujas moedas sofreram desvalorizações, mostra que as exportações tendem a reagir a partir do terceiro trimestre do ajuste da taxa de câmbio. Se assim for, o Brasil poderá obter algum saldo positivo na balança comercial, mas ninguém arrisca prever quanto. No ano, até agosto, o resultado é negativo em pouco mais de US$ 700 milhões. Em setembro, até o dia 6, a balança apresentava superávit de US$ 117 milhões. Até a quarta, após o feriado da Independência, este superávit já havia recuado a US$ 71 milhões.





