Brasília, 03 (AE) - O Palácio do Planalto evitou hoje comentar as últimas declarações do presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), que em entrevista voltou a chamar o presidente Fernando Henrique Cardoso de "indeciso". O porta-voz Georges Lamazire informou que o presidente não comentou as declarações do pefelista porque "não leu os jornais". A estratégia do Planalto é deixar a poeira baixar e não alimentar a polêmica.
Segundo um assessor palaciano, o presidente tem sempre ressaltado que apesar das "alfinetadas" cada vez mais constantes, "no essencial ACM têm sido leal ao governo". Um ministro da área política disse que a rivalidade "é resultado da personalidade forte dos dois". Entre os políticos carlistas a avaliação é semelhante. "Esse é um casamento por necessidade e não por amor", declarou um parlamentar próximo do senador Antonio Carlos.
Esse mesmo parlamentar descarta qualquer possibilidade de rompimento. "Até porque ninguém rompe com o governo com dois ministros e faltando três anos para terminar o mandato". Já o deputado José Carlos Aleluia (PFL-BA), também do grupo político carlista, ressalta a divergência de temperamento entre o senador e o presidente. "ACM não tem um alinhamento automático com o presidente Fernando Henrique", explicou ele, acrescentando também que não se cogita o fim da aliança.
A interpretação de políticos dos dois lados é de que a tendência é acontecer um desgaste cada vez maior na relação entre o presidente e ACM. A divergência entre os dois é antiga e só foi amenizada após a morte do deputado Luís Eduardo Magalhães
filho de ACM e articulador político do governo. Mas pouco tempo depois, as alfinetadas recomeçaram. No ano passado a primeira grande trombada aconteceu quando ACM lançou a CPI do Judiciário. Durante o recesso, no mês de julho, o senador pefelista silenciou durante 30 dias para não atrapalhar a decisão do governo em garantir incentivos para a instalação de uma montadora da Ford na Bahia.
Mas logo depois lançou um debate nacional para combater a pobreza, que acabou provocando ciúmes do próprio presidente. Já no final do ano, ACM cobrou uma maior articulação política do presidente para poder manter "coesa a base de sustentação do governo". Fernando Henrique respondeu ao senador lembrando que não iria mudar o seu estilo e que "engole sapos" pelo bem do País. As críticas de ACM levaram o presidente a dizer, na semana passada, em entrevista ao Jornal do Brasil, que "ACM não se mete no governo".