Montevidéu, 07 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso irá encontrar-se amanhã (08) com o presidente eleito do Uruguai, Jorge Batlle, no único compromisso bilateral da viagem para participar da cúpula de chefes de Estado do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul), cuja sede é em Montevidéu.
A esperança de Battle com o encontro, segundo assessores do presidente eleito, é obter de Fernando Henrique informações concretas de que o real não irá se desvalorizar mais em relação ao dólar.
Político de formação ortodoxa do ponto de vista financeiro, Batlle está com os movimentos limitados para fazer reformas estruturais no país e depende da evolução econômica do Brasil e da Argentina para melhorar os índices da economia uruguaia. Este ano, o déficit fiscal do país não ficará em menos de US$ 500 milhões, segundo as previsões governamentais, podendo atingir US$ 800 milhões, ou 4% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo projeções extra-oficiais.
O comprometimento da receita uruguaia com o pagamento de servidores e de inativos, segundo informações de analistas econômicos divulgadas nos últimos dias, deverá ficar acima de 65% e o déficit na balança comercial poderá atingir US$ 1 bilhão. No último trimestre, a produção industrial uruguaia caiu 15,9% e calcula-se que existam 160 mil desempregados, número expressivo num país com menos de 4 milhões de habitantes.
A situação do país deteriorou-se com a desvalorização do real, com a arrecadação tributária caindo em razão do esfriamento da economia.
Durante as reuniões técnicas preparatórias do encontro de cúpula do Mercosul, assessores do governo uruguaio comemoravam a queda da cotação do dólar no Brasil para menos de 1,87 real a unidade. Brasil e Argentina respondem por mais de 50% das exportações uruguaias e o país tem dificuldades para procurar mercados alternativos por causa do mal momento no mercado internacional das commodities do Uruguai, como a lã, o arroz e a carne bovina.
Ao contrário de Brasil e Argentina, o Uruguai não adotou políticas estruturais de restrições de gastos. As privatizações foram brecadas desde a derrota do governo no plebiscito que proibiu a venda da telefônica local (Antel) e o funcionalismo público manteve a estabilidade. Assessores de Batlle pregam a adoção de um rígido programa de ajuste fiscal, que seria adotado depois das eleições municipais de maio de 2000, envolvendo a diminuição de encargos trabalhistas e a taxação de inativos, entre outros pontos.
Não é descartada por algumas correntes a desvalorização do peso, mas as dificuldades políticas para qualquer mudança drástica a partir de 1º de março, quando Batlle assume a presidência, não são pequenas. "Não se poderia acabar com a estabilidade do servidor público sem um plebiscito, e, dificilmente, Batlle conseguirá apoio popular para a idéia", opinou um assessor do futuro presidente. A desvalorização do peso também é considerada de difícil operacionalização, uma vez que a imensa maioria das empresas do país possui dívidas em dólar.
O aumento de tarifas para combater o déficit fiscal é uma solução descartada, uma vez que a diminuição do custo de produção no país foi uma das promessas de campanha de Batlle. Também não se pensa num aumento de impostos, pois um dos motivos que levou o opositor dele, o esquerdista Tabaré Vasquez, a perder as eleições do dia 28, foi justamente a proposta de instituir-se o Imposto de Renda de Pessoa Física.
Extinto desde a década de 60 no Uruguai, o Imposto de Renda proposto pela esquerda taxaria apenas os assalariados que recebem mais de US$ 1 mil mensais, mas a tese de Vasquez foi mal compreendida pelo eleitorado, abrindo um flanco para Batlle avançar na conquista de indecisos, afirmando que o tributo seria facilmente sonegável pelos contribuintes com maiores recursos.

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