FHC embarca de volta ao Brasil evitando comentar escândalo envolvendo Chico Lopes
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terça-feira, 20 de abril de 1999
Por Isabel Braga, enviada especial 
Londres, 21 (AE) - Aparentando descontração, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou Londres hoje pela manhã para retornar ao Brasil depois de sete dias de viagem por três países europeus. Quando um dos jornalistas, brincando, comentou que ficaria em férias na Europa, por mais três semanas, e indagou se quando retornasse ainda haveria País, o presidente não titubeou: "não se preocupe, vai ter País sim".
Antes de embarcar, o presidente pode ler artigo publicado hoje no Financial Times, que fala de forma positiva sobre a recuperação econômica do Brasil, mas não deixa de citar o escândalo envolvendo o Banco Marka (sem citar o nome) e o fato de o presidente, "com a popularidade em queda em razão da recessão", estar enfrentando investigações no Congresso sobre corrupção no sistema financeiro.
Além do pequeno diálogo com os jornalistas, travado quando Fernando Henrique já estava dentro do carro, o presidente não deu qualquer outra declaração relativa ao escândalo envolvendo o ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes. Embora o presidente não tenha falado sobre o caso Lopes ao deixar Londres, e tenha declarado ontem que este é um problema específico do ex-presidente do BC, o governo continua monitorando os avanços da CPI dos Bancos.
Este assunto será tratado em reunião marcada para sexta-feira com o ministro da Justiça, Renan Calheiros, um dos ministros peemedebistas no governo. A CPI dos Bancos tem como relator o peemedebista João Magalhães (MA) e sua criação foi exigida pelo líder do PMDB no Senado, Jáder Barbalho (PA). Despedida - Eram exatamente 10 horas da manhã (horário local) quando Fernando Henrique desceu a escadaria da residência do embaixador em Londres, posou para fotos ao lado dos funcionários da casa e despediu-se dos jornalistas, recomendando que aproveitassem o "bom tempo" em Londres para passear. Ele estava acompanhado da primeira-dama, Ruth Cardoso, que também posou para as fotos.
O ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga afirmou hoje que não ficou sabendo dos rumores sobre o desaparecimento de Chico Lopes e até mesmo de boatos de que o ex-presidente do BC poderia ter se suicidado. "Nossa que coisa, não ouvimos nada", disse Pimenta, apressando-se em dirigir-se ao carro que o levou ao aeroporto para o retorno ao Brasil. Tiazinha - O artigo sobre o Brasil, publicado pelo Financial Times, principal jornal econômico europeu, é assinado pelo jornalista Geoff Dyer. Traz como título "O teste do real ainda está por vir" e afirma que a prova de fogo da rápida recuperação da moeda brasileira será a aceitação pelo mercado dos US$ 1 bilhão de global bonds que o governo brasileiro ofereceu aos detentores de brady bonds (bônus da renegociação da dívida externa brasileira) e a outros investidores interessados nos papéis brasileiros.
A troca dos brady bonds pelos global bonds poderá ser feita até às 15 horas (hora de Nova York) de sexta-feira. Estes novos títulos vencem em 2004. O artigo, do sisudo jornal britânico, curiosamente traz - ao lado de gráficos sobre a recuperação econômica brasileira e a pergunta: "é hora de comemorar?" - uma foto da Tiazinha, vestindo um biquíni de lantejoulas, em pleno carnaval carioca. O texto tem cinco colunas, é a manchete da página 25 e foi publicado ao lado dos editoriais do Financial Times.
No artigo, o jornalista Geoff Dyer fala sobre a valorização do dólar ter chegado a R$ 2,20 em março e já estar hoje em R$ 1,70, o que mostra a surpreendente recuperação da moeda brasileira. Também destaca a oferta de bônus três meses após a crise, ao contrário de outras economias em crise, como a do México e da Coréia do Sul, que demoram mais tempo e a Indonésia e Malásia que até hoje não voltaram ao mercado de bônus. Dyer atribuiu o sucesso brasileiro a vários fatores, entre eles o de o sistema bancário brasileiro estar forte e sólido e representar apenas 20% da economia brasileira e o fato de o Brasil ter conseguido controlar a inflação em baixa.
O jornalista inglês argumenta que o preço do controle da inflação foi o aumento das taxas de juros, o que levou o País à recessão e provocou a queda na popularidade do presidente. Ao fazer referência ao escândalo do Banco Marka, Dyer pondera que o sentimento de euforia com a rápida recuperação econômica é frágil e pode ser alterado. O jornalista encerra o artigo afirmando que o presidente está com a popularidade em queda e na defensiva porque está enfrentando no Congresso o início de duas profundas investigações sobre "corrupção no governo". A citação é genérica e inclui a CPI do Judiciário como se fosse uma investigação no Executivo.


