São Paulo, 11 (AE) - Os funcionários de mais alto escalão das áreas de comércio exterior e integração do Brasil e da Argentina discutiram hoje em São Paulo os termos em que se realizará a reunião de cúpula de amanhã (12), em Campos do Jordão (SP), entre os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem. O propósito do encontro é puramente político: curar as feridas e demonstrar coesão, depois da troca de ameaças e farpas entre os dois principais parceiros do Mercosul que se seguiu à desvalorização do real. Mas, para isso, era preciso estabelecer até onde o Brasil poderia - e necessitaria - ir nas concessões para apaziguar a Argentina.
A reunião foi a portas fechadas. Pelo clima que se instalou hoje no 19° andar do prédio do Ministério da Fazenda em São Paulo, os acertos parecem ter ficado para a última hora. Não admira que os funcionários, que já se haviam encontrado em Brasília na segunda e terça-feira, enfrentassem dificuldades em chegar a um acordo.
Os argentinos exigiam alguma forma de compensação pela isenção de ICMS sobre produtos de exportação e o fim da aplicação do Programa de Financiamento à Exportação (Proex), sobretudo sobre bens de consumo. Acontece que imposto sobre importação não é cobrado por virtualmente nenhum país, incluindo Argentina. O Brasil era um dos últimos a cobrar, antes da Lei Kandir.
E o Proex, em grande parte, apenas equipara as condições de competitividade de alguns produtos de exportação do Brasil às de outros países. Se o Brasil ceder nesses pontos, estará admitindo, indiretamente, que esses benefícios são subsídios e cavará o próprio túmulo nos processos contra o País na Organização Mundial do Comércio (OMC).
Confusão - Os funcionários brasileiros chegaram às 11 horas pelo elevador privativo, diretamente para o conjunto de salas que forma o gabinete do ministro em São Paulo, de onde não saíram até a noite. Já os funcionários argentinos, foram chegando no varejo, vindo de Buenos Aires, direto do aeroporto, e recusaram-se a fazer qualquer comentário. "Estamos preparando a reunião dos presidentes", foram as únicas palavras do subsecretário do Comércio Exterior da Argentina, Félix Peña.
Numa amostra da confusão que reinou durante o dia, Peña saiu às 13 horas dizendo que ia para Buenos Aires e voltou às 16 horas, com o secretário de Relações Econômicas Internacionais, Jorge Campbell, chefe das negociações, do lado argentino. As informações são de que recebeu ordens de ficar até o fim.
O Brasil estava representado pelo secretário-executivo da Câmara de Comércio Exterior, José Botafogo Gonçalves, pelo secretário de Comércio Exterior, Mário Marconini, e pelo subsecretário da Integração Econômica, José Alfredo Graça Lima.
O governo argentino preparou um discurso conciliador para a reunião de cúpula, que será no Palácio Boa Vista, residência do governador paulista em Campos do Jordão. "Devemos agir com prudência, porque conseguimos muito com a construção do Mercosul e não podemos nos arriscar a jogar tudo pela janela por causa de medidas apressadas", comentou, em Buenos Aires, o ministro da Economia da Argentina, Roque Fernández.
Segundo o secretário de Planejamento Estratégico da Argentina, Jorge Castro, a reunião servirá para reafirmar o Mercosul como prioridade. "A crise nos fortalece", filosofou.
O discurso contrasta com as pressões que vêm sendo feitas pelo empresariado para que Menem adote medidas de proteção à indústria local, sob concorrência mais acirrada dos produtos brasileiros por causa da desvalorização do real. Os empresários dizem que a Argentina não pode partir para uma reunião como essa com um discurso conciliatório, de antemão.
"Reação histérica" foi a expressão usada por Fernández para definir o comportamento dos empresários argentinos, que advertem para uma "avalanche" de produtos brasileiros. Fernández sustenta que "a situação não é tão grave como dizem".
Com a semiparalisia dos negócios, à espera da estabilização do real, as importações de produtos brasileiros caíram 35%, na comparação entre janeiro de 1998 e janeiro deste ano.

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