FHC e Menem discutem impacto da desvalorização do Real na Argentina
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sábado, 13 de fevereiro de 1999
por Vladimir Goitia 
Campos do Jordão, SP, 12 (AE) - A forte queda de 35% nas importações de produtos brasileiros em janeiro deste ano, em comparação com o mesmo mês de 98, e os consecutivos déficits comerciais nos últimos anos na corrente de comércio com a Argentina (US$ 1,28 bilhão, em 98; e US$ 1,34 bilhão, em 97), não conseguiram, até agora, convencer o setor industrial argentino de que dificilmente haverá "uma avalanche" brasileira sobre aquele mercado, mesmo com a desvalorização do real.
Daqui a pouco, o presidente Carlos Menem, chega a Campos do Jordão, sob forte pressão do setor privado argentino para apresentar ao presidente Fernando Henrique Cardoso algumas propostas que possam compensar o eventual impacto da crise cambial brasileira na balança comercial entre os dois países. A União Industrial Argentina (UIA) insiste em dizer que os impactos da desvalorização do real serão "devastadores" para o setor produtivo argentino.
Esta semana, o secretário geral dessa entidade, José Ignácio de Mendiguren, não cansou de acusar o Brasil de estar não só subsidiando suas exportações, como também estar aplicando restrições financeiras e burocráticas contra produtos argentinos. Mendiguren chamou de "nefasta" a posição do governo Menem por ter qualificado de histerismo as reclamações dos empresários argentinos.
Mesmo assim, a delegação de técnicos argentinos, presidida por Menem, trouxe a Campos do Jordão uma série de propostas que deverão ser discutidas até a hora do encontro de FHC com Menem, previsto para 12h00. "Se, em uma mesa de negociações você vai e diz para a outra parte (Brasil) que está assustado e que não vai colocar nenhuma condição, essa estratégia nos parece nefasta", disse o secretário da UIA, em declarações a uma rádio argentina.
Será nesse clima de pressão que FHC e Menem terão de decidir hoje se os dois países abrem mão ou não de alguns mecanismos que têm incentivado suas exportações. Os argentinos querem que o Brasil extinga o Proex (Programa de Financiamento às Exportações) para bens de consumo exportados para o Mercosul; a reavaliação do sistema de anuência prévia para mercadorias importadas da Argentina; e uma compensação (taxação) sobre as exportações brasileiras beneficiadas pela Lei Kandir.
"A única coisa que queremos é que se cumpra o que já deveria ter se cumprido antes", afirmou o secretário da UIA. Caso contrário, acrescentou ele, a Argentina deveria determinar cotas de importação que limitem a entrada de bens de consumo brasileiro ao mercado argentino.
Mendiguren parece não lembrar, entretanto, que no ano passado o Brasil importou US$ 8,029 bilhões da Argentina e exportou apenas US$ 6,75 bilhões.
A queda das importações de produtos brasileiros, que passaram de US$ 520 milhões, em janeiro de 98, para US$ 339 milhões, no mês passado, parece não ter atenuado o desespero do empresariado argentino. Enquanto a UIA afirma que as exportações de chocolate subiram 700% no mês passado, as estatísticas do governo argentino mostram que esse crescimento não passou de 30%. Os dados oficiais mostram ainda que as importações de metais não subiram mais do que 5,75%, ao contrário dos 300% que a UIA afirma ter aumentado. As importações de petroquímicos cairam 32 6%; a de máquinas e equipamentos, 37,3%; e a de bebidas e alimentos, 16,3%. A queda mais expressiva foi a importação de veículos, que passou de US$ 151 milhões, em janeiro de 98, para US$ 80 milhões, em janeiro deste ano.


