Buenos Aires, 07 (AE) - Os presidentes Fernando Henrique Cardoso e Carlos Menem, da Argentina, disseram hoje que os países do Mercosul estudam um acordo sobre déficit público, grau de endividamento e taxas de juros como passo inicial para a adoção de uma moeda única. "Se quisermos - como queremos - chegar um dia a termos, quem sabe, no futuro, até uma moeda do Mercosul, precisamos ter um pequeno Maastrich, como fez a Europa", disse Fernando Henrique, referindo-se ao tratado que coordenou as macroeconomias dos países europeus. "Temos de adotar algumas metas que devem começar por ser aquelas que levem ao equilíbrio das finanças públicas, que é a condição necessária para possibilitar uma integração crescente." Segundo ele, tanto o Brasil como a Argentina estão discutindo leis que disciplinam os gastos públicos.
Menem disse que pedirá aos demais parceiros no Mercosul que acelerem suas discussões sobre esse tema, pois, na sua opinião, o fortalecimento das economias locais dará mais fluidez às relações do bloco com os demais países. "Ao falarmos desse tema
estamos falando da necessidade da criação de uma moeda comum, que depois poderá se converter em outra moeda, a longo prazo", observou.
O presidente argentino afirmou que o importante no momento é chegar a uma moeda comum no Mercosul, classificando a dolarização como um projeto a longo prazo. Ele explicou que a idéia de adotar o dólar como moeda corrente surgiu da constatação de que restarão no mundo apenas quatro ou cinco moedas, como resultado do processo de formação de blocos econômicos. O presidente argentino lembrou que a dolarização tanto pode ser feita unilateralmente, como também em negociação com os Estados Unidos ou ainda uma "união monetária em nível continental".
Os dois presidentes se disseram convencidos de que o fortalecimento das bases das economias nacionais dentro do bloco econômico é a melhor maneira de fazer frente a novos ataques especulativos. "A melhor forma de resistir contra esses ataques às nossas economias é mais Mercosul", afirmou Menem.
Fernando Henrique disse que seu encontro com Menem teve como objetivo tratar de temas concretos para fortalecer o Mercosul no curto prazo. Além da disciplina para os gastos públicos, outro tema classificado com prioritário é a discussão dos subsídios à agricultura, durante a reunião de cúpula entre Mercosul e União Européia, marcada para o final de junho. A França só quer debater esse tema em 2003 e, por isso, vetou uma recomendação conjunta de todos os países da Europa no sentido de autorizar o início das negociações com o Mercosul.
Brasil e Argentina insistirão na negociação dos subsídios. "Se não tivermos êxito nessa proposta, que vamos compartilhar a fundo com Brasil e outros países do Mercosul, a reunião será muito linda, muito bonita, mas o resultado não creio que será muito positivo", disse Menem. Fernando Henrique disse esperar que a reunião seja "verdadeira". "Acho que a Europa tem hoje, diante de si, uma decisão importante: saber se quer continuar cuidando de seus subsídios para manter intocada uma situação agrícola, ou se está disposta a jogar um papel mais forte no mundo", disse o presidente brasileiro. Ele observou que o fato de o presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, não haver obtido autorização para negociar uma integração entre o Mercosul e a Aliança de Livre Comércio das Américas (Alca) abriu uma oportunidade para a Europa. "A Europa é que não pode perder a oportunidade, não somos nós", disse.
Os dois presidentes informaram, ainda, que orientaram suas equipes a encontrar soluções para as principais pendências bilaterais - o regime automotivo e açúcar, entre outros - até o dia 31 de julho.
FMI - Fernando Henrique informou que a missão do Fundo Monetário Internacional (FMI) que começou hoje uma nova rodada de negociações com o governo brasileiro está mais centrado na verificação dos dados sobre a economia. "Nós alcançamos todas as nossas metas", comemorou.
Ele afirmou que não há decisão sobre se o País sacará ou não a terceira parcela do empréstimo do FMI, pois, apesar de as reservas internacionais estarem na casa dos US$ 45 bilhões, o Brasil poderá interessar-se pelos recursos, pois seu custo é menor do que algumas outras fontes de crédito externo.
Ele afirmou, ainda, que trajetória de queda nas taxas de juros estão mantidas e o País voltará a crescer no segundo semestre, o que será positivo para o fluxo de comércio com o país vizinho. "O que é bom para o Brasil também é bom para a Argentina", disse. O presidente lembrou que a economia brasileira recuperou-se mais rápido do que o esperado e a inflação não disparou, estando projetada para cerca de 3% no primeiro semestre deste ano. "Os brasileiros sabem que tenho sido persistentemente otimista, não no sentido de ser irrealista ou ingênuo, mas no sentido de não dar ao País a sensação de que não há saída para os problemas - e eu acho que tinha razão", disse.

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