Washington, 10 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje, nos Estados Unidos, que a "urgência dos problemas sociais não pode ser nunca pretexto para políticas econômicas irresponsáveis, que só contribuem para piorar os problemas". FHC classificou a manutenção da inflação sob controle como "inegociável". Em três discursos em Washington e Nova York a platéias de executivos, empresários, banqueiros e altos funcionários, Fernando Henrique procurou afastar as dúvidas criadas pela crise que levou à desvalorização do real, em janeiro, sobre o compromisso do governo de manter o rigor da política fiscal e aprofundar as reformas estruturais da economia.
Em todas as intervenções, preparadas pela assessoria do Planalto com a ajuda da equipe econômica e feitas num inglês hesitante, o presidente disse o que as platéias queriam ouvir. Ao mesmo tempo, ele reafirmou que o objetivo do governo brasileiro continua a ser o progresso social. Para os críticos dele no Brasil, que vêem uma incompatibilidade entre as políticas de ajuste e os objetivos sociais do governo e para aqueles que, em Wall Street, temem que o sociólogo e estudioso da desiguldade tenha uma recaída "desenvolvimentista", o presidente afirmou que "ter uma atitute prática com relação aos problemas é essencial para um país como o Brasil".
Diante de uma audiência de banqueiros de black-tie, com quem jantou no Hotel Hyatt, em Nova York, Fernando Henrique afirmou que "não há motor mais importante para a estabilidade e para o desenvolvimento social do que o crescente consenso global em favor de boas políticas econômicas". Isso, continuou ele, leva a um novo enfoque que exige fidelidade não a teorias e ideologias, mas a "um compromisso com processos que funcionem". A estabildade funcionou no Brasil porque contribuiu para reduzir a pobreza, disse, citando estatísticas da Cepal. "Como demonstram os dados estaísticos, não há contradição entre progresso social e eficiência econômica", acresentou.
"Nós buscamos o êxito econômico em nome da justiça social." Com esse objetivo, Fernando Henrique chamou a atenção para a volatilidade financeira e os juízos apressados e impulsivos que ela gera a respeito de países, para enfatizar a tensão que existe entre a aplicação das políticas de reforma econômica em países democráticos e o mercado financeiro. "Para que uma democracia possa aplicar essas políticas, elas necessitam que o apoio do povo se mantenha a longo prazo", afirmou. "No entanto, enquanto as políticas corretas exigem mais paciência, os mercados financeiros vão tornando-se mais impacientes." Diante disso, disse o presidente, há que perguntar: "Como conciliar as reações de curto prazo dos mercados com os interesses de longo prazo das economias e das democracias?" Para o presidente brasileiro, essa é uma questão "extremamente complexa". Mas, antes que os banqueiros tivessem tempo para a interpretar como um sinal de dúvida de Fernando Henrique sobre a viabilidade das reformas, ele esclareceu. "Quero salientar que minhas preocupações não farão irromper políticas irresponsáveis ou de estilo populista na calada da noite", disse. Ele emendou: "Minhas preocupações vêm das reflexões de um homem que já viu o lado bom, o lado ruim e as variações imprevisíveis do pensamento do mercado financeiro."
Apresentado, pela manhã, ao falar na Câmara de Comércio dos EUA, como "um intelectual com uma tendência ao pragmatismo e um visionário capaz de mudar de idéia", Fernando Henrique constatou, diante dos banqueiros, a obsolecência de idéias defendidas por ele e que os críticos dele usam hoje para o atacar. "As mais ambiciosas teorias e ideologias de todo matiz foram varridas - se posso ampliar a frase de Schumpeter - por ventos de destruição criativa intelectual", afirmou.
"Mesmo as faculdades de economia parecem agora valorizar a pesquisa prática." Ao falar, na hora do almoço, à conferência anual do Eximbank, dos EUA, na qual foi o convidado de honra, Fernando Henrique reafirmou o compromisso do governo com as reformas. "Não há lugar para complacência na área fiscal e permanecemos totalmente comprometidos com uma estrita disciplina nessa área", disse o presidente. "Sabemos que estamos no rumo certo, mas posso assegurar aos srs. que não há no governo risco de euforia despropositada", acrescentou ele, depois de chamar atenção para a rápida recuperação que a economia vem exibindo, com juros em queda, inflação contida e a moeda estabilizada na faixa de 1,60 a 1,70 real por dólar.
Fernando Henrique transmitiu essa mesma mensagem pela manhã, numa palestra na Câmara de Comércio dos EUA. A esse grupo
o presidente disse que as transformações em curso no Brasil e o êxito do País em responder e conter a crise e a recessão se devem à maturidade da sociedade brasileira. Segundo ele, há dois sinais dessa maturidade.
"Um é a democracia, o outro é a recusa da população brasileira de aceitar a inflação." A importância que os brasileiros dão hoje à estabilidade econômica é a razão pela qual a desvalorização da moeda não se traduziu em volta da inflação e em pressões pela reindexação da economia, afirmou. "Isso é uma vitória da população."
O presidente destacou o papel do Congresso na aprovação das medidas que permitiram o retorno da confiança e da estabilidade antes do que o próprio governo previa. No esforço de tranquilizar os investidores, Fernando Henrique permitiu-se alguma licença oratória. "Quando a crise da moratória russa complicou a vida dos mercados emergentes, não hesitamos em agir com rapidez e, para isso, contamos com o firme apoio do Congresso brasileiro", disse, resumindo fatos como a recusa da Câmara em aprovar duas medidas essenciais à pronta resposta do País à crise, a moratória mineira e a conduta da política cambial a "uma série de eventos que levou o governo a flutuar o câmbio".

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