FHC diz que País está cansado da impunidade e reclama da dificuldade para telefonar com novo sistema
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 23 de dezembro de 1999
Por Eliane Azevedo e Gustavo Alves 
Rio, 23 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje, no Rio, que o Brasil cansou de ver a inércia, a impunidade. "Hoje há no Brasil uma consciência, de cada cidadão
cada cidadã, de seus direitos, suas responsabilidades", disse. "Há uma ação coletiva, porque o Brasil cansou de ver a inércia, a impunidade, o não fazer nada, o cruzar os braços, o esperar que tudo venha de cima", disse, em discurso na inauguração do Centro de Operações da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos (ECT). Antes, Fernando Henrique admitiu ter dificuldade com o novo sistema de discagem de números telefônicos, adotado a partir da privatização da telefonia. A reclamação, que o presidente disse ser "quase de brincadeira", foi feita na presença do ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, e o diretor-geral da Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), Renato Guerreiro.
"Como agora são tantos números para a gente discar no telefone, eu me atrapalho a toda hora, quem sabe eu pudesse ter, a meu lado, um destes carrinhos que me ajudasse a telefonar", disse o presidente. Ele referiu-se a uma experiência adotada em alguns países, onde existem telefones públicos móveis, que são colocados em carrinhos onde fica um funcionário encarregado de realizar as ligações. "Eu digo isso assim, quase de brincadeira
mas o conteúdo é sério", continuou o presidente. "É para dizer que todas as transformações não podem acontecer esquecendo-se do ser humano", complementou. Consciência - No seu discurso, FHC afirmou que, mais importante do que as transformações tecnológicas, é a transformação da "mentalidade" dos brasileiros. "Hoje, há no Brasil uma consciência, de cada cidadão, cada cidadã, de seus direitos, suas responsabilidades", afirmou o presidente, para quem a mudança da mentalidade já aconteceu. "Há uma ação coletiva, porque o Brasil cansou de ver a inércia, a impunidade, o não fazer nada, o cruzar os braços, o esperar que tudo venha de cima
que o governo faça tudo, e se peça sem cessar, e não se dê nada", afirmou.
"Em toda a parte se vê organizações que não são do Estado, que não são empresas, mas que se organizam para ajudar o País a avançar", elogiou Cardoso. O presidente já disse que seu projeto de governo é tornar a sociedade menos dependente do Estado - uma característica deixada pelo governo de Getúlio Vargas, segundo sua interpretação. "É assim que os países se transformam, na égide da democracia", afirmou.
No discurso, elogiou os funcionários dos Correios - cujo sindicato colocou, antes da solenidade, uma kombi com alto-falante em frente ao centro de operações para criticar o governo e denunciar a intenção de privatização do serviço. "Eu sei das dificuldades, eu sei das reivindicações, eu sei das impossibilidades", reconheceu. "Mas eu tenho certeza que é graças a vocês, a cada um de vocês, homens e mulheres que aqui trabalham, é que nós continuaremos crescendo". Visita - Logo após a inauguração, o presidente deixou o Centro de helicóptero e seguiu até o Forte da Urca, na zona sul. No bairro, ele visitou a residência do ex-ministro do Exército do seu primeiro governo, Zenildo Zoroastro de Lucena. O ex-ministro está com problemas de saúde. Depois da visita, que durou uma hora, Fernando Henrique foi descansar na residência oficial, na Gávea Pequena, na zona sul.


