Brasília, 07 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso diz estar convencido de que não houve vazamento de informações na desvalorização do real, em janeiro. Mas diz que "se o Banco Central errou (ao socorrer os bancos Marka e FonteCindam), os erros devem ser corrigidos". Após jantar com o presidente da Venezuela, Hugo Chaves, ontem (06) no Palácio do Itamaraty, Fernando Henrique disse ser "ridícula" a informação de é contra a CPI do Sistema Financeiro. Alega que "mandou o Banco Central abrir tudo" e que "não é para esconder nada."
Fernando Henrique negou categoricamente que tenha discutido, no almoço com o ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, no dia 14 de janeiro, a operação de ajuda aos bancos Marka e FonteCindam, ao contrário do que insinuaram os advogados do ex-presidente do BC, em recente entrevista. "Não se falou nada disso. Eu não preciso ficar sabendo dos detalhes técnicos de operações do dia a dia." No dia 14 de janeiro, o Banco Central decidiu zerar a posição do FonteCindam e vendeu dólares a preços mais baratos que os praticados pelo mercado ao Marka.
Segundo o presidente, passados os "momentos mais difíceis" da economia, ele voltará a se dedicar mais à política. Fernando Henrique disse que se afastou das discussões políticas porque estava "muito preocupado" com os ataques contra o real e com a manutenção da estabilidade da moeda. Agora
informa, está retomando o comando político do País e pretende estabelecer regras de convivência entre os partidos aliados. Esse foi um dos temas da conversa que teve hoje pela manhã com os presidentes dos partidos de sua base de sustentação. Para ele
CPI e votação das reformas podem caminhar juntas.
O presidente considera "prematura" a discussão sobre sucessão presidencial e acredita que os partidos vão se cansar disso agora. Quanto à sua popularidade, ele entende que daqui a pouco será revertida. "Isso é outra coisa, depende do desemprego, da inflação, da economia", disse. A seguir, os principais pontos da entrevista: CPI - "Eu nunca fui contra a CPI. O que eu estou dizendo é que não se pode cuidar só de CPI e esquecer o resto. Temos que aprender a conviver com as duas coisas, votações e CPI. Pode ter CPI e o Congresso funcionando normalmente. O que não se pode querer, é fazer da CPI palanque político, holofote político. O que tiver que investigar, tem que ser investigado, o que tiver que apurar, que apure. É ridículo dizer que tentei atrapalhar ou impedir os trabalhos da CPI mas é preciso ter mais objetividade nas coisas, ser mais específico nos trabalhos". BANCO CENTRAL - "Falar hoje sobre o que aconteceu naqueles dias é fácil. É preciso ver aquele momento. Eu nunca tinha ouvido falar de Banco Marka. Não dá para discutir essa questão do BC agora. Foi uma decisão de momento, levando em conta a situação que todos estavam vivendo, os problemas surgidos naquela hora. Só quem estava lá sabe o que realmente aconteceu". ALMOÇO - "No tal almoço do dia 14 não se falou nada de ajuda aos bancos Marka e FonteCindam. Não havia motivo para isso. Não preciso é ficar sabendo dos detalhes técnicos da operação do dia a dia do Banco Central". REFORMAS - "Já estão sendo feitas reformas no BC. Já estamos fazendo muita coisa e podemos fazer mais. Temos que aperfeiçoar o sistema. Foram aprovadas várias medidas para melhorar o controle do BC sobre as intituições." MERCADANTE - "O que é que apareceu até agora? No depoimento, ele descreveu quem ganhou e quem perdeu com a desvalorização do real. Falou sobre o ataque especulativo ao real. Naquele momento o Brasil sofreu 41 ataques especulativos. Tínhamos que reagir. Estou convencido de que não houve inside information. De jeito nenhum. Não admito isso. Mas se houve erros, eles têm que ser corrigidos e os culpados por irregularidades, se existirem, punidos." CALMARIA - "As coisas agora estão mais calmas. Não é que a CPI tenha acabado, mas entrou em um outro ritmo. O governo não tem nada a esconder. O BC tem ordem expressa para abrir tudo. Não é para esconder nada. Tem que ser transparente". ECONOMIA - "A economia está entrando nos trilhos. Temos um dado muito importante que é a entrada de recursos no País, investimentos diretos esse ano. Para este ano, a previsão é de US$ 20 bilhões e até agora já entraram US$ 9 bilhões. Isso é muito bom nesse momento". CRESCIMENTO - "Já fizemos a opção pelo crescimento, só que as coisas não acontecem de uma hora para outra. São mais lentas. Mas os juros já estão caindo. Vocês viram a inflação? A FIPE apresentou um prognóstico de que o resultado será em torno de 7%. Até o Paul Krugmann (consultor político norte-americano que acusou o presidente do BC, Armínio Fraga, de ter passado inside information para o megainvestidor George Soros, para quem Armínio trabalhava), está defendendo o Brasil". SUCESSÃO e ACM - "É natural que os partidos pensem em candidatos e nomes mas é muito cedo para cuidar de eleição. É claro que os partidos agem sempre pensando em candidaturas mas não é hora para isso. Eles acabam se cansando, vendo que não é hora e vão se preocupar com outras coisas." ARTICULAÇÃO - "Agora que a economia está entrando nos trilhos novamente, posso voltar a me dedicar à política. Agora deu o ponto. Vocês (a imprensa) são engraçados, quando eu estava à frente das negociações, diziam que eu estava interferindo e que precisava nomear um coordenador. Quando eu me afastei, cobraram minha ausência. Desde domingo voltei à coordenação, chamando os líderes, conversando com as bancadas, reunindo os partidos". PIMENTA - "O Pimenta da Veiga (ministro das Comunicações e articulador político do governo) está me ajudando muito. Mas eu preciso estar à frente, só que não posso fazer tudo sozinho. A natureza da aliança exige a minha participação. Foi assim desde o início. Daqui para a frente vamos ter uma regra de convivência da aliança. Vou centralizar mais as discussões e estamos restringindo ao máximo a ocupação de espaço político. Se o partido indicar uma determinada pessoa e essa pessoa tiver qualificação, ótimo". O presidente voltou a sinalizar que a preferência será por indicações técnicas. "Afinal, quem manda aqui, não sou eu? Por isso retomei as negociações e digo que daqui para a frente vai ter uma regra de convivência política entre os partidos da base aliada. É claro que cada um tem o seu ponto de vista, o seu interesse, mas no final, eu decido". REFORMAS - "Precisamos dar prosseguimento às reformas e para isso precisamos contar com o apoio da base". Indagado se não seria hora de selecionar mais as alianças do governo, já que não depende mais do quórum de três quintos para aprovar emendas no Congresso, o presidente comentou: "Como não precisa se ainda temos que votar as reformas tributária, política e tributária, por exemplo?"
REFORMA MINISTERIAL - "Tudo invenção".

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