FHC diz que não está preocupado com queda da popularidade
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Por Isabel Braga 
Brasília, 23 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje, num discurso de 50 minutos, na Confederação Nacional da Indústria (CNI), que não está preocupado com a queda da popularidade e que fez todos os esforços possíveis para resolver as dificuldades com o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB).
Fernando Henrique abordou diversos assuntos no discurso. Falou sobre as perspectivas do País e voltou a afirmar que a estabilidade econômica será retomada. Veja, a seguir, os principais pontos do pronunciamento: JUROS - "Sem a estabilidade, não há como haver queda do juros. Quando vim aqui, no ano passado, houve uma grita forte dos empresários de São Paulo para que desvalorizássemos a moeda e baixássemos os juros. Fizemos, é verdade, que, no atropelo e sem que o governo tivesse condições de evitar o processo, não tivemos força para tanto, e estamos vendo o custo disso. Por isso, não se fazia e não se fazia tão depressa. Mas não vamos chorar sobre o leite derramado e vamos tirar as vantagens, otimisticamente, da situação que se abriu agora. Temos condições
mantido o rumo e o combate a inflação, de ir progressivamente baixando os juros e criando condições de financiamento para que a nossa indústria possa ter a integração competitiva tão almejada." CONVICÇÓES - "Tenho convicções, estou no governo da República porque tenho convicções, saí da universidade para a vida política por circunstâncias de luta contra o regime autoritário, sou presidente da República pela segunda vez, não tenho porque mudar de convicções, estamos no caminho certo, o Brasil vai crescer, vai dar apoio à industria, à estabilidade, mas não vai esquecer o seu povo, que é o bem maior que nós temos." ESTABILIDADE - "A idéia fixa, minha, do governo, sempre foi a de que, sem conseguir a estabilidade, não iríamos ter condições de levantar, neste país, as energias necessárias para uma integração competitiva. E que, sem a integração competitiva, nós não teríamos condições de absorver o novo paradigma tecnológico. A idéia de provocar a estabilidade, ainda que tivesse um custo, foi a idéia predominante." REELEITO - "A prova de que o custo (da manutenção da estabilidade e da sobrevalorização do real) não foi mais alto do ponto de vista das camadas mais pobres é que eu fui eleito e reeleito. Essa é a prova evidente disso porque o povo não elege alguém porque é a favor de Krugman, ou contra Krugman, porque é favor de Keynes, ou contra Keynes. É a favor do estômago ou contra o estômago. É a favor do trabalho ou contra o trabalho. São coisas muito concretas, que movem o comportamento das grandes massas da população. Então, houve um certo trade off nesta matéria." PIB - "O governo irá criar o superávit de 3% do PIB (Produto Interno Bruto), que é muitíssimo para uma economia em relativa depressão, em crise. Mas o Congresso nos deu muito. Mas não vamos fazer sem prestar muita atenção à rede de proteção social que um país como o Brasil não pode dispensar. Haverá, aí, permanentemente, um olho para saber se os programas que chegam na ponta não serão atingidos." CORTES - "Muita gente que fala em cortar mais não sei quantos pontos do PIB nunca sentou responsavelmente numa cadeira para tomar decisões e não sabe que as decisões afetam o povo. Quando afeta o povo, é mais doença, mais mortalidade infantil e mais dificuldades para o povo e há limites para isso. O mercado emite os sinais, mas o governo corrige estes sinais e impõe limites para essa espécie de voracidade para que o governo corte, corte, corte. Faremos o que for necessário para manter a estabilidade, para combater a inflação, para garantir que a proporção dívida/PIB seja decrescente, mas com a consciência moral de que estamos dirigindo um país muito desigual e que as populações mais pobres não podem suportar custos além de certo limite." PLATINA NA CABEÇA - "Se é verdade que tudo está condicionado por fluxos que são internacionais e, de repente, num dia de céu azul vem um raio - como se diz num ditado em alemão - vem um raio e te quebra a cabeça. A nossa cabeça quebrou tantas vezes que nós não nos preocupamos, estamos com pedaço de platina que resiste bastante. Mas temos de tomar as medidas necessárias para continuar avançando." POPULARIDADE - "Vou fazer o ajuste, não tenho nenhum temor quanto à questão de popularidade, assim como vai, vem. Além do mais, quem está no seu segundo mandato tem é de pensar no País, na sua história e não nos rumores dos que estão próximos ou longínquos ou daqueles que, com tanta facilidade, podem usar as palavras, imaginando que afetam a estabilidade emocional de quem comanda. Não sei se, por bem ou por mal, sou otimista e sou muito resistente, o couro é duro." PREGADOR - "É preciso que a sociedade entenda o porquê da reforma tributária. As sociedades não entendem o que se fala. Há interesses subconscientes, conscientes, antagônicos, enraizados, que não permitem que a palavra penetre. A palavra pode penetrar nos corações e por isso é mais fácil ser pregador do que político porque os pregadores encontram mentes mais abertas, corações mais dispostos a aceitar a linguagem da boa nova e os políticos não têm esse mesmo relacionamento com a sociedade." CAMUFLAGEM - "A sociedade encontra na palavra dos políticos uma pitada - pitada por generosidade - de desconfiança. Porque acredita que algum interesse, não posto sobre a mesa, é que está motivando a palavra e não adianta imaginar que é diferente. É mais fácil a sociedade acreditar na palavra de descrédito, de crítica, do contra, do que na palavra positiva, afirmativa. Por isso, debate tem de ser reiterado e é preciso chegar próximo à situação limite para que a boa nova seja entendida como boa e não como camuflagem." ITAMAR -"O Brasil é testemunha dos esforços imensos que tenho feito para evitar que, a partir de uma demanda que é justa, criar condições de solvabilidade para os Estados, a partir daí alguns, Estados criem condições de insolvabilidade para o Brasil. Eu não vou ceder nesse ponto. Porque, se ceder, estarei indo contra o interesse do povo e contra tudo que construímos durante estes anos." TESOURO AMERICANO - "O ministro Delfim (Netto (PPB-RJ) tem mais experiência sobre departamento de tesouro, sabe que, às vezes, é difícil convencer o Departamento do Tesouro Americano de certas obviedades porque são obviedades para os que estão deste lado de cá do mundo, mas não são obviedades para os que estão do outro lado do mundo e nem são do interesse dos que estão no outro lado do mundo. Então, há sempre a idéia de que, com essa integrações, nós precisamos de isonomia, de condições de competitividade, parecem ser tentativas de evitar o risco, tentativas de evitar a necessidade da competição, quando na verdade não é isso. Trata-se de situações estruturais diferentes no mundo." CRISE RUSSA - "As condições de persistência desta política começaram a desaparecer com a crise russa porque ela produziu um impacto muito grande sobre a oferta de recursos financeiros do mundo. Na medida em que desaparecem as condições objetivas, é claro que o governo tem de tomar outras direções." DECISÃO ELEITORAL - "De vez em quando, eu vejo discussões nos jornais de que haveria influência de comportamento eleitoral na tomada de decisões. Ledo engano. Havia convicção, e sobretudo, por parte dos que dirigem a economia, de que era necessário persistir. No momento em que o presidente se convence de que não há mais condições objetivas para persistir, ele muda, qualquer que seja o custo. Não há encadeamento lógico entre imaginar que houve motivação política para tal ou qual decisão: o que houve foi a decisão de manutenção de uma política de estabilização e discussões sobre os limites em que essa política pode ser mantida." CUBA - "Não há outro caminho. Como presidente, não posso me referir completamente a nenhum país concreto para dizer qual é o exemplo do atraso. Mas nós vamos nos desligar das conexões mundiais para ficarmos fechados, quando os que estavam fechados estão se abrindo? Veja a China. Cuba não se abre porque os EUA não deixam. Então, vamos procurar nos fechar? Seria insensato. Mas vamos nos abrir sem nos capacitar? Seria outra insensatez. O único recurso que se tem é aumentar a capacidade tecnológica, formação de pessoal, educação, treinamento." RESPONSABILIDADE INTERNA - "E não cabe dúvidas que nestas modificações todas, o Brasil terá de continuar assumindo suas responsabilidades internas e aí não adianta imaginar que o sistema mundial, Lord (Jonh Maynard) Keynes, Banco Central dos Banco Centrais, tudo isso é importante, mas não nos exime da responsabilidade nós fazermos aqui dentro o que temos que fazer." INCOMPREENDIDO - A agenda está posta no Brasil, com toda clareza e toda tranquilidade. Eu, recentemente, dei entrevistas e elas foram interpretadas de forma precipitada. Qual é o pensamento meu e do governo? Temos de seguir adiante com as reformas." AMARRAS DA CONSTITUIÇÃO - "As modificações que dizem respeito à nossa sociedade, ao desafio do novo rumo, estão amarradas por algum dispositivo constituicional e isso é algo, sobretudo para o público estrangeiro difícil de entender. Que eu aqui, para mudar o imposto, tenho que mudar a Constituição. É algo complexo de ser entendido e não posso me queixar porque fui co-autor da Constituição. Isso requer, por um lado uma construção política permanente." REFORMA POLÍTICA - "Acabei de brincar com o meu amigo, o vice-presidente da CNI (Carlos Eduardo Moreira Ferreira (PFL-SP) porque ele é de um partido diferente do meu, mas somos da mesma base. E aqui, basta olhar para o ministro Delfim ( Netto (PPB-RJ), é também - suponho - da base. Isso mostra que temos que ter uma arquitetura que não pode ser vista de um ângulo sectário. A sociedade compreende mal os malabarismo de quem conduz a política brasileira, que não é feito pelo pendor pessoal do presidente da República na negociação. É feito à necessidade do sistema político da obtenção de maiorias que assegurem a condição das transformações de matérias que requerem três quintos da maioria, matérias até algumas corriqueiras, que em qualquer país do mundo - com a maioria simples, e meu Deus a maioria simples aqui é tão simples". CONGRESSO FORTE - "Temos uma longa tradição de parlamento, o Parlamento é forte, mas a tradição partidária não é enraizada nas práticas tradicionais dos regimes democráticos. É um paradoxo difícil de ser entendido, mas é verdadeiro. Mas é bom que o Congresso seja forte porque obriga sempre um diálogo entre Executivo e Legislativo e não adianta imaginar uma reforma de um certo tipo, porque vai sair de outro. Vou lutar pelo que quero, mas os outros também vão lutar e vai acontecer uma resultante que é democrática. A reforma (política) vem para fortalecer um pouquinho a estrutura partidária para facilitar o encaminhamento das reformas essenciais." PREVIDÒNCIA - "Começamos a mexer no que é essencial, o equilíbrio fiscal, porque a estabilidade, ainda que ancorada no câmbio ou nos juros, não tem permanência. E isso significou enfrentar uma questão que é a mais difícil de todas e que não é só do Brasil: o financiamento da Previdência. É a questão do século que vem. Nós avançamos mais que outros países nesta matéria porque o Congresso, graças a crise, foi sensível e votou leis extremamente austeras, sobretudo para o setor público." COMPREENSÃO - "A sociedade precisa se compenetrar dos desafios, no caso da Previdência, acabou se compenetrando. No início parecia ser, até porque a oposição assim veiculava, que era uma política chamada neoliberal e que visava acabar com as garantias sociais e era muito difícil avançar porque a crosta ideológica era esta, quando o objetivo era outro: viabilizar a Previdência no futuro. Sem o que viria a inflação e viria a penalizar as camadas mais pobres."


