FHC diz que Glauber Rocha lhe convidou para atuar em 'Terra em Transe'
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domingo, 27 de fevereiro de 2000
Por Tânia Monteiro 
Brasília, 28 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso aproveitou hoje o encontro com cineastas vencedores do Grande Prêmio Cinema Brasil, durante almoço no Palácio da Alvorada, para fazer um desabafo em relação ao ônus do cargo, que lhe exige uma "pesada rotina". Fernando Henrique lembrou o convite feito pelo cineasta Glauber Rocha, no fim da década de 60, para participar do filme "Terra em Transe", e falou das frustrações pessoais.
"Primeiro, eu gostaria de poder saber música, cantar - e sou um desastre", confidenciou o presidente, falando, em seguida, sobre o convite que recebeu de Rocha para que fosse ator de "Terra em Transe". "Eu arrependo-me imensamente porque acabei sendo presidente da República para ser ator de alguma maneira", disse o presidente. Ele acrescentou: "É muito melhor ser um ator vitorioso, como vocês são, ou criador vitorioso, do que estar no dia-a-dia, aqui, que é só agradável quando tem gente aqui como vocês." Fernando Henrique afirmou ainda que, como o prêmio é sempre entregue no Hotel Quitandinha, em Petrópolis, região Serrana do Rio, o presidente da República não vai poder jamais estar lá. "Porque só tem uma porta, e a segurança não me deixa ficar num lugar em que eu não tenha como escapar", justificou.
Referindo-se à enorme quantidade de espelhos existentes no Palácio da Alvorada, Fernando Henrique afirmou que ali era "a casa de Narciso".
"Há espelho para todo lado", acrescentou. "Já que falaram tanto espelho escondido, aqui não há nenhum problema", brincou o presidente, acentuando que os artistas podiam ter certeza de que ali "sempre há espelho para aparecer".
Depois de elogiar os premiados, Fernando Henrique defendeu o apoio à produção cultural, que permitiu impulso ao cinema. Para o presidente, não é por causa do apoio que o cinema "irá bem ou mal porque, em um dado momento, em qualquer atividade que requer criatividade, depende de um demônio interno". Segundo ele, "se as pessoas não têm esse demônio interno, não há recurso material que faça a produção aparecer". "É claro que só com essa criatividade, com essa vontade de fazer, com esse demônio íntimo também não dá."


