Londres, 20 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou hoje, em Londres, que as dúvidas veiculadas sobre a capacidade e o empenho do governo brasileiro em fazer os ajuste fiscal é uma estratégia do mercado financeiro para lucrar com a incerteza. "Essa tentativa permanente de achar que não vamos fazer o ajuste e colocar a vara mais alta para dar um salto triplo é um jogo do mercado que está sempre querendo mais e mais", acusou o presidente.
Ao reafirmar o compromisso na realização do ajuste fiscal brasileiro, Fernando Henrique lembrou que o Brasil demonstrou capacidade de ajustar as contas e de iniciar o processo de crescimento da economia. "Por que, ao invés de comparar a crise do real à da Àsia ou à da Rússia, não pegamos como exemplo a crise da Inglaterra em 1992", argumentou. Ele lembrou que o Brasil possui a Lei de Responsabilidade Fiscal - "que é a maneira mais objetiva de assegurar o ajuste".
"Existe uma cultura política que leva, em certos momentos, a não ter responsabilidade com as contas, mas isso está mudando porque as crises fazem os países amadurecerem", disse, respondendo à pergunta sobre como o governo pretendia obrigar os governadores a fazer o ajuste nos Estados. Fernando Henrique afirmou que o governador mineiro, Itamar Franco (PMDB), usou a palavra "moratória" sem consciência dos efeitos que poderia causar.
Fernando Henrique afirmou, entretanto, que, ao usar a palavra moratória e como o Brasil tinha outros problemas, Itamar desencadeou a crise econômica, mesmo sem que a ameaça de moratória pudesse ser cumprida. O presidente citou que o governo possuia mecanismos para evitar que um governador pudesse simplesmente decidir não saldar as dívidas com o Executivo federal. "Existe uma lei que impede isso."
O presidente retorna amanhã (21) ao Brasil, levando o apoio dos três países que visitou nesta viagem à Europa ao lançamento das bases para as negociações de criação de uma área de livre comércio entre a União Européia (UE) e o Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul). Hoje, Fernando Henrique afirmou que irá telefonar ao primeiro-ministro da França, Jacques Chirac - país que faz maior resistência ao início das negociações neste momento - para o convidar a participar da cúpula UE, América Latina e Caribe, que será realizada em junho, no Rio.
Fernando Henrique afirmou que quer evitar que estas discussões se transformem numa "briga" entre Brasil e França e disse acreditar ser possível chegar a uma solução. Ele explicou que uma das razões da visita à Europa foi checar se a resistência ao início dos entendimentos era algo "generalizado", mas que, ao obter o apoio explícito dos três países - Alemanha, Inglaterra e Portugal -, está mais confiante em avanços em junho. O presidente reiterou que, para o Brasil e o Mercosul, não há como abrir mão da inclusão do setor agrícola no acordo.
"A idéia do encontro foi do Chirac, mas não queremos apenas discussões formais: queremos que a Comissão Européia tenha um mandato negociador que inclua o problema da agricultura", disse o presidente.
"Isso tem de estar na agenda." Durante a visita à Alemanha, Fernando Henrique pediu ao primeiro-ministro Gerhard Schr”eder - que está ocupando a presidência rotativa da UE , que convide o primeiro-ministro italiano, Romano Prodi, que assumirá a presidência da Comissão Européia, para o encontro no Rio.
Antes da entrevista, o presidente conversou durante pouco mais de duas horas, na residência da Embaixada do Brasil em Londres, com quatro intelectuais ingleses sobre o futuro da social-democracia. Segundo o professor Alfred Stepan, do Departamento de Ciência e Política de Oxford, Fernando Henrique perguntou muito sobre a experiência inglesa. Na coletiva, o presidente disse que ficou "com inveja" do nível de discussão da social-democracia em países como a Inglaterra.
Segundo o presidente, como não precisam se ater a "discussões pobres" sobre ter ou não excedente no orçamento para fazer programas sociais, eles discutem como usar melhor o dinheiro público. Stepan disse não considerar o governo Fernando Henrique neo-liberal. "Um governo que tem o programa de valorização dos salários dos professores não pode ser considerado neo-liberal", disse, explicando que a maior vantagem deste programa é a melhora da renda dos professores nas áreas mais carentes.

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