Brasília, 31 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje que a falta de entrosamento entre os principais órgãos do governo dificulta o combate ao narcotráfico no Brasil. Durante a abertura da primeira reunião do Sistema Nacional Antidrogas (Sinad), no Planalto, Fernando Henrique argumentou que a articulação da Polícia Federal com a Secretaria Nacional Antidrogas - os dois principais órgãos federais na luta contra o narcotráfico - é "difícil" pela "própria natureza do ser humano". "Cada um quer ter um domínio aqui, um domínio ali, esse pedaço é meu, aquele pedaço é teu; não, aqui não entra e, nesse vaivém, quem entra é o narcotraficante", disse.
Fernando Henrique afirmou que amplitude de ações que envolvem a questão das drogas não pode ser resolvida apenas por um órgão, "por mais poderoso que seja esse órgão, ou esses órgãos". "Ou esses órgãos se articulam ou não vão ter condições de ganhar a luta contra os narcotraficantes." Para uma platéia composta poder judiciário, forças policiais e representantes do Estados e municípios que atuam nesta área, Fernando Henrique cobrou uma maior articulação entre a Secretaria, a Polícia Federal e os juizes encarregados do assunto, para que o País possa avançar na guerra às drogas. "Não nos enganemos: se nós não nos articularmos, seremos derrotados."
O presidente disse que a disposição do governo não é substituir ações locais - "formas de repressão que são das polícias militares, civis ou da Polícia Federal", nem a ação de juizes ou dos órgãos encarregados do tratamento do viciado. "É simplesmente permitir que haja uma multiplicação das forças, através da articulação entre esses vários órgãos." De acordo com Fernando Henrique, como a luta contra o narcotráfico é uma "guerra inglória", a derrota nem aparece, porque os próprios narcotraficantes não irão cantar vitória. "Mas o tecido social amolece, a capacidade de resistência diminui, a criatividade das sociedades também esmorece e isso tem efeitos permanentes e muito daninhos", completou Fernando Henrique. Para ele, é preciso também que os diferentes órgãos, além de compartilharem informações sobre a rede de narcotráfico dentro do Brasil e além das fronteiras, devem comunicar à sociedade o que o governo vem fazendo.
CARTA - Na visão de Fernando Henrique, a informação sobre as ações na guerra contra às drogas a sociedade pode funcionar como um "antiveneno". "Nas sociedades modernas, assim como a droga pode penetrar com facilidade, digamos o antiveneno também pode penetrar com facilidade", disse. "A verdadeira guerra é a da comunicação."
O presidente voltou a afirmar que a repressão ao uso de drogas e à ação do narcotráfico é necessária, mas "insuficiente para combater o veneno que a droga significa para a sociedade contemporânea". Antes do discurso do presidente, foi lida carta enviada pelo organismo das Nações Unidas responsável pelo combate às drogas no mundo, classificando a criação de uma força-tarefa - que engloba forças de ordem federal e estaduais - como "uma solução acertada para a redução da oferta de drogas".

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