Montevidéu, 01 (AE) - O presidente Fernando Henrique afirmou hoje que a referência para o aumento do salário mínimo será a variação dos preços da cesta básica de alimentos, e não o valor do dólar. "Quem vive de salário mínimo no Brasil não gasta em dólares, gasta em reais", argumentou o presidente. Fernando Henrique, irritado, rebateu críticas à concentração de renda no Brasil, contidas em relatório do governo norte-americano, e questionou a responsabilidade de mercados americanos e europeus sobre a fome no País.
As declarações foram dadas em entrevista concedida hoje à rádio uruguaia El Espectador. Depois de ouvir o jornalista Emiliano Cotelo citar uma série de dados negativos contidos no relatório, Fernando Henrique enfatizou: "Os dados (do relatório) mentem muito." Divulgado na sexta-feira (25), o relatório feito pelo Departamento de Estado dos EUA, diz que há 2,9 milhões de crianças trabalhando no Brasil, 21 milhões de brasileiros vivendo na pobreza, e afirma que o salário mínimo brasileiro equivale a US$ 70 e é insuficiente para sustentar uma família de quatro membros.
Sempre enfatizando que é preciso dar sentido aos dados colhidos e apresentados pelo relatório, Fernando Henrique partiu para o ataque: "Qual a responsabilidade que têm os mercados americanos ou europeus para que não se abram as economias, para que se mantenha a situação de fome aqui?; qual a consequência de se impedir que se venda aço ao mercado americano ou que exportemos o suco de laranja?", questionou o presidente.
Irônico, Fernando Henrique falou sobre o fato de o relatório dedicar 52 páginas ao Brasil: "Ficamos muito honrados
mostra que o País é importante", reagiu, acrescentando: "Por quê os países da América Latina não fazem informes (relatórios) sobre os Estados Unidos?" O presidente admitiu que "é escandalosa" a brutal concentração de renda no País, mas enfatizou que é preciso reconhecer que o governo tem feito um "grande esforço educacional" para mudar essa situação. "Não posso ser cobrado por 500 anos de exploração", afirmou.
Na entrevista, Fernando Henrique também enfatizou que, apesar dos problemas com o grande déficit público brasileiro, o governo mantém as verbas para os programas sociais. "Não estamos aqui com o tradicional receituário do FMI (Fundo Monetário Internacional) , até porque o FMI também mudou", disse o presidente. "Os esforços para a mudança nos problemas sociais do Brasil estão em marcha, mas as mudanças são lentas."
Ao dizer que a comparação do valor do salário mínimo não pode ser em relação ao dólar, mas ao valor da cesta básica, Fernando Henrique lembrou que, com 70% do atual salário mínimo, equivalente a 136 reais, é possível comprar a cesta básica no Brasil.
Ele voltou a afirmar que o valor do salário é baixo e que o governo dará um "aumento real e não nominal". "Vamos aumentar, mas com responsabilidade", disse. Interlocutores de Fernando Henrique dizem que ele ainda não tomou qualquer decisão sobre o melhor momento de divulgar o reajuste do mínimo. A área econômica continua defendendo o anúncio mais adiante, mas continua a pressão política para a antecipação.
Na entrevista à rádio uruguaia, o presidente também evitou fazer previsões sobre as variações do real frente ao dólar. "Qualquer coisa que eu diga, fazem especulação", justificou. "Mas não há razões para que o câmbio seja motivo de preocupações para o Brasil", garantiu o presidente. Fernando Henrique salientou que, nos primeiros dois meses deste ano, entraram quase US$ 5 bilhões em investimentos externos no País. "Os dados macroeconômicos são muito consistentes", comentou.
O presidente também acrescentou que o governo está trabalhando para reduzir o déficit da Previdência, citando a aprovação da lei que instituiu o fator previdenciário como instrumento de cálculo da previdência do trabalhador privado. "Até 2005/2006 é possível estacionar o déficit da Previdência"
disse. "Temos feito reformas como nenhum outro país que vive numa democracia, reformas incessantes." Fernando Henrique evitou durante todo o dia de hoje dar declarações sobre o valor do mínimo ou sobre o teto salarial do funcionalismo público aos jornalistas brasileiros. Quando indagaram em que mês o presidente iria anunciar o reajuste, Fernando Henrique ironizou: "Meu aniversário é em junho."
Quando deixava o Palácio Legislativo, onde participou de solenidade de posse do novo presidente uruguaio, Jorge Batlle, Fernando Henrique limitou-se a dizer que a expectativa para a reunião sobre teto salarial que realizará amanhã (02) em Brasília é "boa". Antes de participar da posse de Batlle, Fernando Henrique recebeu o futuro presidente do Chile, Ricardos Lagos, para um almoço na embaixada brasileira em Montevidéu.
Depois do encontro, Lagos manifestou o desejo de que o Chile se torne membro pleno do Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) durante o mandato dele. Hoje, apenas Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai são membros plenos - partilham uma zona de livre comércio e formam uma união aduaneira, com a Tarifa Externa Comum para muitos produtos. Chile e Bolívia são considerados membros associados e apenas tem acordos de livre comércio com o Mercosul.