O presidente Fernando Henrique Cardoso comemorou ontem, em solenidade realizada no Palácio do Planalto, o assentamento de 287 mil 539 famílias durante os quatro anos de mandato. O número apresentado pelo governo e questionado pelas lideranças do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), representa a superação de promessa, feita em 1995 quando assumiu o governo, de assentar 280 mil famílias na reforma agrária. O presidente afirmou ainda que, no segundo mandato, irá ‘‘passar da mera etapa da reforma agrária’’ para investir na qualidade de vida nos assentamentos.
‘‘Neste novo mandato que o povo me concedeu, é preciso prestar atenção ao que se vai fazer nas terras concedidas’’, afirmou o presidente, citando ações na área de educação, saúde e melhoria das estradas. ‘‘É preciso ver o mundo rural na totalidade para que não haja uma separação tão drástica entre a vida no campo e nas cidades, que acaba orientando o movimento de migração.’’ Fernando Henrique enfatizou que esta melhoria não ocorrerá em detrimento dos assentamentos. ‘‘Mas vamos fazer os assentamentos com mais discernimento.’’ O ministro extraordinário de Políticas Fundiárias, Raul Jungmann, anunciou ontem que, para o assentamento das 287.539 famílias, em mais de 8 milhões de hectares, o governo investiu de R$ 7 bilhões no programa nacional de reforma agrária. ‘‘É a maior reforma agrária do mundo’’, disse Jungmann. Fernando Henrique acrescentou que os assentamentos rurais garantiram a inclusão de 1,5 milhão de pessoas que estavam à margem da sociedade. ‘‘É uma demonstração da vontade do governo de resgatar a dívida social’’, afirmou.
No balanço apresentado na solenidade, Jungmann lembrou que, desde 1964, quando foi editado o Estatuto da Terra, até o início do governo Fernando Henrique, foram assentadas 218 mil famílias. ‘‘Em quatro anos, assentamos muito mais do que foi feito nos últimos 30 anos’’, disse o ministro, que também comparou os gastos com a reforma agrária nestes 30 anos (cerca de R$ 3,9 bilhões, segundo dados do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) e no governo Fernando Henrique. ‘‘Em quatro anos, quase que se dobrou os recursos.’’ Jungmann também chamou atenção para a redução do número de mortes de trabalhadores sem-terra no governo Fernando Henrique. Em 1996, foram 54 mortos, em 1997, 30 mortos e, este ano, até novembro, foram registradas 26 mortes. ‘‘A redução na violência tem relação com o programa nacional de reforma agrária’’, argumentou. O ministro criticou a postura do MST de questionar os números de assentamentos apresentados pelo governo.
‘‘O sr. (João Pedro) Stédile tem de provar, apresentar os números dele’’, disse. Jungmann ironizou ainda as ameaças feitas por Stédile que, em 1999, o MST irá endurecer com o governo, aumentando o número de ocupação das terras improdutivas. ‘‘O MST deverá tomar Viagra se quiser endurecer com o governo’’, disse. ‘‘O caminho mais correto é o do diálogo.’’ O trabalhador rural Nelson Barcelos Oliveira, de 36 anos, participou da solenidade de ontem. Ele ganhou 35 hectares de terra em Unai (MG) e créditos no valor de R$ 2 mil reais. Casado e com dois filhos, os dois estudando, ele aguardou a posse das terras por mais de um ano. Ele não quis criticar as ocupações feitas pelo MST para obrigar o governo a dar terras para os trabalhadores rurais.

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