Rio, 28 (AE) - O Mercado Comum do Cone Sul (Mercosul) pretende avançar ao mesmo tempo na busca de um acordo com a União Européia (UE) e na formação da área de Livre Comércio das Américas (Alca), segundo o presidente Fernando Henrique Cardoso. "Não gostaríamos de terminar as negociações com um bloco sem ter chegado a uma definição sobre o outro", disse o presidente, hoje, ao comentar, numa entrevista, a reunião dos governantes do Mercosul e Chile e do bloco europeu.
Há apenas duas datas de referência, por enquanto, para as conversações com a UE. A primeira é novembro, quando se começará a definir o formato das discussões. Os diplomatas deverão encontrar-se em Bruxelas para abrir o debate sobre estrutura, metodologia e calendário das negociações. Haverá reuniões dos Conselhos de Cooperação previsto no Acordo Quadro Inter-regional Mercosul-UE, assinado em dezembro de 1995, e Conjunto, definido no Acordo Quadro, firmado em junho de 1996 pelo Chile e pelos europeus.
A outra data é 1º de julho de 2001. A Comissão Européia só tem mandato para negociar tarifas a partir desse dia. Fernando Henrique apresentou à imprensa uma interpretação otimista desse dado.
Segundo ele, 1º de julho de 2001 foi considerado, no encontro do Rio, um "limite final", quando se deverá ter começado ou estar iniciando as negociações de tarifas. Para o exame das barreiras não-tarifárias, acrescentou, nem haverá limite.
"Deve ter havido alguma confusão", comentou, no fundo, da sala um diplomata. A decisão européia é deixar de lado a questão tarifária pelo menos até essa data.
Segundo Fernando Henrique, haverá, de fato, uma antecipação dos trabalhos por causa da reunião marcada para novembro. Mas esse encontro será destinado ao debate de questões preliminares - embora importantes para a estratégia de cada lado. Além disso, ninguém fixou prazo para essa tarefa preparatória. As discussões iniciadas em novembro poderão se estender por um ano e meio, segundo o diretor do Departamento de América Latina da Comissão Européia, Stefano Gatto.
Coincidência: nesse caso, a preparação só terminará em meados de 2001. A negociação com a UE será balizada, de toda forma, pela Rodada do Milênio, da Organização Mundical do Comércioa (OMC). Os mais otimistas prevêem resultados da rodada a partir de 2003, mas ninguém tem a mínima segurança para afirmações como essa. As últimas grandes negociações multilaterais, a Rodada Uruguai, foram lançadas em 1986 e só terminaram em 1994 - e ainda sobraram assuntos para revisão depois de cinco anos. Os novos acordos da OMC definirão as obrigações comerciais mínimas de cada país.
Serão a base, portanto, para a troca de concessões adicionais, como aquelas previstas para a Alca e para a associação Mercosul-UE. É parte da política brasileira - e, em grande medida, também do Mercosul - ampliar os vínculos comerciais em várias frentes. "O desafio da globalização impõe-nos o esforço de desenvolver todas as vertentes e possibilidades de cooperação e intercâmbio", havia dito Fernando Henrique, horas antes da entrevista, na reunião de trabalho dos chefes de governo e de Estado. Ele reafirmou, nesse discurso, dois pontos da estratégia diplomática brasileira: aprofundar a integração no Mercosul, buscando a coordenação de políticas e abrindo caminho para a moeda única, e "intensificar os vínculos do Mercosul com os demais países da América do Sul, rumo a um espaço de prosperidade compartilhada". Este segundo objetivo é conhecido como a política dos "building blocks" - da integração continental progressiva a partir de acordos com outros países latinos.
A decisão de lançar as negociações entre Mercosul e Chile e UE foi formalizada num comunicado conjunto de oito parágrafos. O objetivo é "a liberalização comercial bilateral, progressiva e recíproca, sem excluir nenhum setor e em conformidade com as regras da OMC". As duas negociações com a UE, a chilena e a do Mercosul, "constituirão, em cada caso, um compromisso único a ser implementado pelas partes como um todo indivisível (single undertaking)". O documento menciona também a reunião de novembro e nenhum prazo.
Fernando Henrique voltou a mencionar, na entrevista, um argumento usado muitas vezes para mostrar por que os europeus devem buscar o acordo com o Mercosul: europeus e sul-americanos, segundo ele, estão igualmente interessados em saber quanto pesarão no cenário internacional no próximo século. Para o Brasil, disse o presidente, o grande interesse é a criação de um mundo multipolar. Pelo menos a vice-ministra de Relações Exteriores da áustria, Benita Ferreno Waldman, parece concordar: "É importante não deixar o campo livre para os americanos", disse, e acrescentou: "Já estamos com algum atraso."

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