FHC discute governabilidade com líderes no Chile Da enviada especial Isabel Braga12/Mar, 19:36 Santiago, 12 (AE) - Depois de se reunir com o novo presidente chileno, Ricardo Lagos, o presidente argentino, Fernando de La Rúa, e o primeiro-ministro italiano, Massimo D'Alema, para discutir alternativas de governabilidade no Século XXI, o presidente Fernando Henrique Cardoso deixou Santiago rumo a Brasília. A reunião, que durou cerca de uma hora e foi realizada no Palácio de La Moneda, sede do governo chileno, deu continuidade a discussões mantidas durante encontro, em novembro do ano passado, na Itália. Segundo os assessores de Fernando Henrique, foi apenas uma conversa informal, onde os quatro chefes de governo aprofundaram algumas idéias em torno do tema. O grande desafio da social-democracia é encontrar alternativas de governabilidade em uma sociedade globalizada, absorvendo os aspectos positivos do capitalismo para reduzir a grande concentração de renda e desigualdade social que ele produz. Batizada como Terceira Via, as discussões sobre a nova forma de governar consistem, principalmente, em saber o grau de influência do Estado na vida do cidadão nesse mundo globalizado. Os governantes não aceitam a prevalência do mercado, mas também sabem que não é mais possível governar nos moldes do antigo regime socialista que já defenderam no passado. O socialista Lagos, que assumiu a presidência do Chile no último sábado, por exemplo, defende a privatização de alguns serviços básicos, mas com regras firmes para garantir qualidade e bom preço ao cidadão. Lagos centrou seu programa de governo na defesa de oportunidades iguais para todos os chilenos e disse que o melhor caminho para isso será a educação. Da reunião em Florença, na Itália, além de Fernando Henrique, D'Alema e o premier britânico, Tony Blair, estavam presentes o presidente norteamericano, Bill Clinton, e os primeiros-ministros frânces, Leonel Jospin, e alemão Gerhard Schr"eder. Único representante dos países em desenvolvimento nessa reunião, Fernando Henrique destacou os efeitos das crises econômicas mundiais nos países mais pobres e cobrou a responsabilidade das instituições financeiras no controle dos fluxos de capitais. Durante os três dias de viagem ao Chile, Fernando Henrique manteve contatos com outros chefes de Estado e governo, mas também relembrou histórias da época em que viveu exilado no país durante o regime militar brasileiro. Na noite de sábado, Fernando Henrique jantou na embaixada brasileira com ministros e convidados da comitiva brasileira e antigos amigos chilenos e estrangeiros com os quais conviveu no país durante seu exílio. Entre os amigos estava o sociólogo francês Alain Tourraine. Regado pelos excelentes vinhos chilenos e ao som de um piano, o jantar se estendeu pela madrugada do domingo, mais extensa em razão do fim do horário de verão no país. Segundo os assessores, Fernando Henrique estava muito à vontade. "São amigos de longa data", comentou um assessor. O presidente também pôde acompanhar de perto e pela televisão a enorme participação popular na posse do colega e amigo da época do exílio Ricardo Lagos. Foram dois dias de intensa festa popular. Na manhã de sábado, o presidente Lagos cumpriu o protocolo, com a transmissão do cargo realizado em rápida solenidade no Congresso Nacional chileno, em Valparaiso, há 140 quilômetros da capital, Santiago. Para simbolizar seu compromisso com o desenvolvimento de todas as regiões do país, Lagos viajou até a cidade de Concepción e fez seu primeiro discurso como presidente eleito. Ainda na tarde de sábado, o novo presidente chileno percorreu em carro aberto várias avenidas de Santiago, sempre saudado pela população com bandeiras e aplausos. Quando o carro presidencial passava pela avenida Alamedas, onde está localizada a embaixada brasileira, Fernando Henrique saiu à sacada para saudar o amigo. Discurso - No discurso de posse, feito da sacada do Palácio de La Moneda, Lagos empolgou os chilenos que lotavam a praça. A comemorações da posse continuaram durante todo o dia de hoje, com um ato religioso ecumênico realizado na catedral metropolitana de Santiago e novo desfile em carro aberto até o Palácio de La Moneda. Pinochet - Nas saudações ao novo presidente, os chilenos transmitiam toda sua esperança na consolidação da democracia no país, após longos e duros anos da ditadura militar do general Augusto Pinochet. Pinochet, que retornou ao Chile depois de quase dois anos retido na Inglaterra, não participou da posse de Lagos. O ditador preferiu descansar em sua fazenda no distrito de Bucalemu, balneário localizado há uma hora e meia da capital chilena. Lagos comprometeu-se ontem, durante as primeiras entrevistas como presidente eleito, a garantir a absoluta liberdade ao Judiciário para julgar Pinochet pelo crimes contra os direitos humanos cometidos durante seu governo (de 1973 a 1988).