Washington, 09 (AE) - Dias depois da reeleição do presidente Fernando Henrique Cardoso, em outubro passado, o Eximbank dos Estados Unidos reabriu o crédito para o setor público brasileiro
fechado há mais de uma década, e anunciou uma nova linha de US$ 1 bilhão, de curto prazo, para financiar a compra de equipamentos e matérias primas nos EUA por empresas brasileiras. Com o real sob intensa pressão no mercado, o governo já negociava empréstimos de US$ 41,5 bilhões com a comunidade financeira oficial que viriam a ser aprovados em dezembro. Mas não era evidente que o País conseguiria evitar ou sobreviver à crise. Pelo contrário, os credores estavam tirando seu dinheiro do Brasil.
A decisão do Eximbank de caminhar no sentido inverso foi um gesto político da administração Clinton. Para deixar isso claro, James A. Harmon, o presidente da agência oficial de financiamento de exportações dos EUA foi ao Brasil fazer o anúncio. Com 38 anos de experiência como banqueiro de investimentos em Wall Street, Harmon sabia que a operação era arriscada. "Embora eu esperasse que haveria uma desvalorização, (depois da visita) mandei um relatório ao presidente Bill Clinton dizendo que os EUA deveriam fornecer mais fundos e ter confiança porque, de algum modo, o País venceria a crise", disse Harmon na quinta-feira passada.
Num gesto de reconhecimento pela ajuda que Harmon prestou ao Brasil no momento em que os demais investidores apostavam contra, o presidente Fernando Henrique Cardoso fará amanhã (10) o principal discurso na reunião anual do Eximbank, em Washington. Fernando Henrique é apenas o segundo presidente a falar para os mais de dois mil empresários americanos que participam do evento de dois dias no hotel Washington Hilton - uma grande feira informativa com dezenas de seminários paralelos organizados com o único objetivo de ajudar o setor privado a identificar oportunidades de exportação em países em desenvolvimento e as fontes de financiamento oficial e privado disponíveis. O primeiro foi Bill Clinton, que usou a conferência em 1993 como plataforma de lançamento da diplomacia comercial de seu governo.
"O Brasil é extremamente importante para o Eximbank, pelo tamanho de seu mercado, que é vital para bens e serviços americanos, e pelo que ela representa na América Latina", disse Harmon. "O Eximbank tem hoje perto de US$ 4 bilhões em créditos e garantias atualmente no País", acrescentou ele, explicando as razões do convite ao líder brasileiro. "O presidente Cardoso foi a nossa primeira escolha, porque ele representa um modelo de liderança responsável nos países em desenvolvimento e, com sua ajuda, o Eximbank pôde aumentar seu financiamento ao Brasil, que sustenta o crescimento e o emprego de trabalhadores nos dois países ".
Há uma sensação de alívio na voz do presidente do Eximbank, quando ele relembra a crise. "Quando penso no medo que muitos de nós sentimos no governo dos EUA, no fim do ano e em janeiro, de que (a crise) poderia desdobrar-se numa das grandes calamidades dos últimos cinquenta anos, mas isso não aconteceu e a razão foi que o Brasil foi capaz de segurar o contágio", disse Harmon. "Com reformas fiscais e uma política monetária forte, o presidente Cardoso conduziu a economia brasileira num período de muita dificuldade e isso é hoje reconhecido: a moeda brasileira recuperou-se em parte, a bolsa está em alta, o País voltou ao mercado de bônus", acrescentou. O presidente do Eximbank não ignora que o Brasil ainda atravessa uma recessão. "Mas estamos confiantes que a recuperação será rápida, mais rápida do que pensávamos possível algumas semanas atrás, e que o País sairá dela mais forte", disse ele.
O banco oficial americano tem hoje mais dinheiro investido na Rússia e no México do que no Brasil. Mas a quase totalidade de seus empréstimos à Rússia e um terço dos créditos ao México foram dados a empresas estatais. No Brasil, onde só reabriu recentemente suas linhas para o setor público, "o Eximbank tem hoje seu maior programa mundial com o setor privado", explicou Harmon. Num sinal de confiança na recuperação brasileira, ele afirmou que "não há limite no montante de financiamento que o Eximbank está preparado a conceder, especialmente para empresas brasileiras de pequeno e médio porte, que são as que mais precisam de crédito". Harmon disse também que o financiamento ao setor público, reativado recentemente com um crédito para a compra de locomotivas pela Ferronorte, poderá chegar a US$ 2 bilhões. O dinheiro do Eximbank está entre os mais baratos do mercado - em torno de 6% ao ano, dependendo do prazo.
A participação na conferência do Eximbank motivou a visita de trabalho de três dias que Fernando Henrique iniciou no sábado aos EUA. Hoje, o presidente tinha prevista, fora da agenda oficial, uma conversa com o vice-secretário do Tesouro dos EUA, Lawrence Summers, na residência da embaixada do Brasil, onde está hospedado. Amanhã (10), Fernando Henrique recebe o secretário do Tesouro, Robert Rubin. Summers foi o principal arquiteto da operação internacional de apoio financeiro ao País, via Fundo Monetário Internacional, aprovada em dezembro passado e reconfirmada no fim de março, depois da crise que levou à desvalorização do real. Em declarações públicas recentes, ele e outras autoridades econômicas americanas manifestaram sua surpresa e satisfação com a capacidade de reação da economia brasileira à crise.
Mas destacaram, também, a importância de o governo seguir adiante na execução das reformas fiscais que já estão no Congresso. "Os empresários tem grande respeito pelo presidente Cardoso e querem ouvir dele uma atualização sobre o programa brasileiro e sua perspectiva para a economia do Brasil e da América Latina", disse Harmon. Além da conversa com Summers, Fernando Henrique recebeu hoje visitas de cortesia de alguns empresários americanos, entre eles Denis Pickard, o presidente da Raytheon, a empresa responsável pelo projeto Sivam. O presidente teve um almoço privado na residência do embaixador do Brasil na Organização dos Estados Americanos, Carlos Alberto Leite Barbosa, e, à noite, participa, com dona Ruth Cardoso, de um jantar organizado pela Fundação das Nações Unidas em homenagem ao prêmio Nobel de Economia, Amartya Sen, um estudioso da desigualdade.
Amanhã (10), Fernando Henrique toma café da manhã com empresários e faz, em seguida, uma palestra na Câmara de Comércio dos EUA, organizada pelo Conselho Empresarial Brasil-EUA. À tarde, depois de um encontro com o presidente Bill Clinton, ele viaja para Nova York, onde terá dois encontros com banqueiros - amanhã (10), num jantar, e na terça-feira (11) num café da manhã.

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