FHC deve usar conceito de lealdade política, diz Pimenta
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terça-feira, 06 de abril de 1999
por Ariosto Teixeira 
Brasília, 7 (AE) - A coletiva de imprensa convocada ontem pelo ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, pode ser interpretada como um indicador de que a crise política na base parlamentar de apoio do Governo se agravará na hipótese de que o PMDB insista na trajetória de choque aberta pela moratória de Itamar Franco e ampliada pela CPI do sistema financeiro pedida pelo partido. Com um discurso propositadamente cifrado, o articulador político oficial do Palácio do Planalto anunciou ter sugerido ao Presidente Fernando Henrique Cardoso que adote novas regras de convivência com seus aliados tendo, como paradigma, o conceito de lealdade política.
O Ministro evitou referência a fatos concretos e até admitiu que a repactuação política por ele sugerida "não tem efeito retroativo", o que excluiria de avaliação a CPI dos bancos criada pelo líder e presidente do PMDB, senador Jader Barbalho (PA). Mas observou que ao levantar suspeitas sobre os dirigentes do Banco Central na condução da mudança de regime cambial, em janeiro, o Governo a que o PMDB pertence será naturalmente prejudicado. "É necessário definir se os partidos da base parlamentar estão liberados para propor investigações ou atos contra o Governo que eles apóiam", defendeu Pimenta.
Ele não confirmou, nem negou, que tenha sugerido o rompimento com o PMDB numa conversa com Fernando Henrique durante o café da manhã no Palácio da Alvorada, na semana passada. Ele confirmou a participação no encontro do senador Jorge Bornhausen (PFL-SC), presidente nacional do PFL. "Não mencionei nomes, nem siglas", limitou-se a dizer. A iniciativa do Ministro das Comunicações sugere que, ao contrário do que tem propagado, o Governo está muito preocupado com os possíveis desdobramentos da investigação defendida pelo PMDB. As reiteradas declarações de dirigentes do PMDB, de que não os move o propósito de encurralar o Governo ou acuar o Presidente, não comovem a mais ninguém no Palácio do Planalto. A versão segundo a qual o comando do partido, com a participação dos ministros dos Transportes, Eliseu Padilha, e da Justiça, Renan Calheiros, comemorou a abertura da CPI dos bancos em um jantar com jornalistas, em Brasília, causou profundo mal-estar na Presidência.
A reação do Governo a esta altura dos acontecimentos parece insuficiente para evitar que o processo de investigação parlamentar tenha curso. As explicações dadas aos jornais pelo ex-presidente do Banco Central, Francisco Lopes, e pelo ex-diretor de Fiscalização, Cláudio Mauch, sobre o socorro aos bancos Marka e FonteCindam despertaram mais dúvidas do que certezas no Congresso, segundo as declarações de Jader e do presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA).
Com elas, os estrategistas do Governo provavelmente anteciparam manchetes, mas só será possível avaliar se a CPI se esvaziará depois que o Banco Central divulgar seus relatórios sobre o assunto. Além de fé no efeito da versão que Banco Central deverá apresentar, resta ao Governo trabalhar na esfera política p ara que a CPI do sistema financeira não se transforme em uma "inquisição sensacionalista".
Cenário positivo - A estratégia insinuada pelo Ministro das Comunicações, Pimenta da Veiga, é evidente. Todas as variáveis relevantes da economia desenham um cenário mais positivo do que o próprio Governo esperava para este início de abril, delimitando o impacto da mudança cambial. A inflação, o câmbio e os juros estão em queda, apontando para dias melhores. Nas palavras do Ministro, o País "está pronto para o desenvolvimento", logo produzir turbulência política agora é o mesmo que agir contra os próprios interesses. A ameaça de exclusão dos desleais, que obviamente se dirige ao PMDB, é também uma aposta em que os dirigentes do partido não serão insensatos. Ora, sabe-se que o PMDB se tornou um partido basicamente parlamentar, que perdeu posições regionais importantes nos estados do Sul, em São Paulo, no Pará, no Mato Grosso e no Mato Grosso do Sul, em Goiás, não tem expressão na Bahia, dec aiu no Rio e é uma incógnita em Minas Gerais.
Em compensação, nomeou três ministros de Estado e ocupa centenas de cargos federais. Com apenas 90 dias do segundo mandato de Fernando Henrique, ao PMDB é indiferente estar ou não no Governo? O Governo pensa que não e que ainda há tempo de revisar posições.


