FHC desabafa e cobra uma "postura guerreira" de sua equipe
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terça-feira, 07 de setembro de 1999
Por Gerson Camarotti e Silvia Faria 
Brasília, 08 (AE) - Depois de três horas de reunião com os ministros e líderes de partidos aliados, o presidente Fernando Henrique Cardoso fez um desabafo de improviso cobrando de sua equipe uma postura guerreira diante os desafios do País.
Ele também exigiu o fim das divergências públicas dos ministros, pediu apoio dos partidos da base governista, cobrou o fim da lentidão na burocracia do Executivo, principalmente na liberação de créditos e criticou fortemente a oposição.
"Estamos numa guerra", disse Fernando Henrique, segundo relato dos presentes. "Quero ministros guerreiros, dispostos à guerra e que venham à batalha e ganhem."
Nesse discurso final em que foi detalhado o Plano Plurianual de Investimentos (PPA), o presidente ainda falou da "solidão" do poder ao fazer uma referência indireta a demissão do ministro do Desenvolvimento, Clóvis Carvalho.
Ao mesmo tempo, Fernando Henrique estabeleceu uma agenda para o segundo semestre, delegando a cada um dos seus ministros tarefas e responsabilidades.
O ministro da Fazenda Pedro Malan, será o responsável pela reforma tributária e Martus Tavares, do Orçamento e Gestão, ficou encarregado da Lei de Responsabilidade Fiscal.
Já o ministro da Previdência, Waldeck Ornélas, ficará com as mudanças da complementação da reforma da Previdência e o titular do Trabalho, Francisco Dornelles, terá como missão a restruturação das leis trabalhistas. O presidente cobrou resultados até dezembro para esses temas.
Em relação ao desentendimentos entre os integrantes de sua equipe estampados nos jornais, Fernando Henrique foi taxativo. "Esses bate-bocas públicos são estéreis; não quero mais divergência para fora", avisou. "Chega de bate-boca que só faz a oposição crescer", analisou o presidente.
Ele aproveitou a oportunidade para criticar os seus adversários. "A oposição perdeu não só o rumo, mas também a cabeça quando discute se o Brasil deve ou não pagar a dívida externa e sobre o fechamento do Congresso", disparou. "A oposição está voltando 30 anos atrás."
Fernando Henrique exigiu de seus ministros mais empenho. "As pessoas tem que se expor mais; estamos aqui para mudar o Brasil", enfatizou.
Nesse momento, o presidente voltou a afirmar que a responsabilidade pela condução da política econômica é exclusiva dele. "Eu não apóio o Malan, mas sim a política econômica em que acredito", avisou.
Fernando Henrique lembrou que o Brasil é o único País abaixo do México que pode manter bases produtivas e tecnológicas para uma inserção positiva no processo da globalização. "As elites nem sempre têm consciência de disso."
Sobre a saída de Clóvis Carvalho, o presidente fez uma referência implícita. "Pago o preço de cortar amigos; é a solidão de conviver com as escolhas", disse. "E o que fazer se não manter as escolhas? Apelar para as armas? Não. Nosso caminho é a democracia."
O presidente encerrou o discurso improvisado de forma afirmativa. "Vamos ganhar essa batalha, já que aqui não tem ladrão", ressaltou. "Prefirimos uma impopularidade temporária a fazer uma pirotecnia que nos desmoralizaria depois", observou. "Afinal, não sou presidente para o período do meu governo, mas para a vida longa do meu País."
Fernando Henrique aproveitou o momento e anunciou mudanças no Cadastro de Inadimplentes (Cadim), que segundo relatou Francico Dornelles, chega a impedir que 50% dos micro e pequenos empresários peguem crédito junto ao governo.
Na reunião, Dornelles chegou a dizer que dos R$ 2 bilhões em recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) disponibilizados mas que a Caixa Econômica Federal conseguiu viabilizar apenas R$ 20 milhões.
Para reforçar a crítica da lentidão da máquina pública para liberação de créditos, o senador José Roberto Arruda (PSDB-DF) lembrou que o Fundo de Aval, aprovado em há oito meses pelo Congresso, até agora não foi implementado pelo governo para facilitar acesso das micro e pequenas e empresas ao crédito.
Ao ouvir esses relatos, o presidente foi incisivo. "É necessário agilizar o processo de gestão", disse Fernando Henrique. "O governo coloca dinheiro à população, mas não consegue levar o dinheiro até a ponta", completou ele, criticando a burocracia da máquina.
Ao final do encontro, o senador Jader Barbalho (PMDB-PA) reforçou as palavras do presidente, acusando os bancos estatais de segurarem o dinheiro que deveria funcionar como crédito. "Esse é um problema de gestão", avaliou Jader. "Os bancos estatais ficam prendendo o dinheiro para a remuneração, o que é um absurdo", disparou o líder do PMDB.
Para os poucos líderes aliados presentes à reunião, o presidente também foi enfático. "Aos líderes não posso convocar
mas posso esperar apoio", disse. "Partido aliado é para apoia e eu me refiro inclusive ao meu próprio partido", cobrou.
Além dos três líderes do governo, senador José Roberto Arruda (PSDB-DF) e os deputados Arnaldo Madeira (PSDB-SP), na Câmara, e Arthur Virgílio (PSDB-AM), no Congresso, estavam presentes como líderes partidários apenas os senadores Jáder Barbalho (PMDB-PA) e Leomar Quintanilha (PPB-TO) e o deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ).
Já entre os ministros, apenas duas ausências: José Serra, da Saúde, e Pimenta da Veiga, das Comunicações. (Colaboraram Doca de Oliveira e Sônia Cristina Silva)


