São Paulo, 12 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso concedeu na noite passada uma entrevista exclusiva ao "Jornal das Dez", da Globo News, quando falou de diversos temas como a questão do narcotráfico, da violência nas cidades, da falta de controle na venda de armas, do desemprego, da inflação, do PPA e das dificuldades políticas que enfrentou no primeiro semestre do ano. O presidente não tergiversou em nenhuma resposta, manteve em todo o tempo o seu habitual otimismo, mas insistiu em que a guerra contra narcotráfico só será vencida se houver uma participação maior do Congresso, do Judiciário, da sociedade, da imprensa, da Igreja e de todos os partidos político. Sobre as perpectivas da economia, reiterou que o PIB terá um crescimento de 4% no próximo ano, e que o dólar irá recuar, já que os compromissos externos do País serão substancialmente menores em 2000. E fez um alerta aos produtores de álcool: não vai permitir aumentos abusivos de preços e especulações. Esta é a íntegra da entrevista: O senhor declarou que há um enraizamento do crime organizado, do narcotráfico, nos setores políticos e governamentais. E que, por sorte, este enraizamento ainda não alcançou as altas esferas do Poder. É verdade. Basta acompanhar o noticiário dos jornais e das televisões, ver esta CPI do Narcotráfico para que se verifique que existe, efetivamente, um início de enraizamento que me preocupa muito. Você vê políciais envolvidos, você vê políticos envolvidos, às vezes com mandato, você vê pessoas ligadas à Justiça sendo acusadas... Então, existe uma situação que é muito mais grave do que simplesmente um fato aqui e outro ali. Existe um sistema para ser combatido. Qual é o alcance do narcotráfico, hoje, nas estruturas de poder no Brasil? Eu disse, também, o seguinte: que para sorte do Brasil esse enraizamento não atingiu os níveis mais elevados de nenhuma destas instituições. Pelo menos eu não vi. Pode atingir, se nós não atuarmos, porque em outros países atingiu. Eu não quero comparar o Brasil com outros países, cada um tem sua peculiaridade, mas o que aconteceu na Itália foi muito grave, destruiu quase o sistema político italiano por ter penetrado profundamente lá. Não estou dizendo que isso ocorra aqui. Lá, no narcotráfico, havia outros aspectos do crime organizado. Mas o crime organizado, sobretudo num mundo que se transnacionalizou nas comunicações, nos modos de remeter recursos de um lado para o outro, então é realmente uma coisa muito séria, e que nós brasileiros temos que encarar com seriedade, com persistência e com determinação. E o senhor tem algum receio do que ainda está por vir, e mesmo assim estaria disposto a continuar incentivando estas investigações? Ou haveria um limite para o trabalho da CPI do Narcotráfico? Não há limite algum. Nem para a CPI do Narcotráfico, nem para qualquer outra organização que esteja buscando o crime ou corrupção no Brasil. Eu acho que essas coisas não podem ser encobertas, doa a quem doer. O senhor citou o exemplo da Itália, como a Itália resolveu o problema do narcotráfico. Qual seria a diferença da cruzada que o senhor prega contra a impunidade e a Operação Mãos Limpas que levou dezenas de juízes, políticos e empresários para a cadeia? Na Itália havia, realmente, durante muitos anos já, há décadas, houve várias organizações, que chamam de máfias... Houve um momento, também, de guerrilha; houve algumas acusações ligando uma coisa à outra, embora nunca fosse muito claro... Então, na Itália, houve um processo de desarticulação muito grande, e houve corrupção em níveis elevados de poder. Eu não quero, na condição de presidente, eu não posso me referir a pessoas, a líderes de outros países. Mas são conhecidos. Alguns foram condenados, outros foram exilados... Enfim, decisões que a Justiça italiana tomou. E houve, na Itália, a questão da Operação Mãos Limpas, onde um conjunto de procuradores atuou com muita força para combater o crime organização, havendo também excessos. Houve na Itália acusações do contrário, de que tinha havido excessos. E sempre que não exista uma norma democrática que regule, como é que se faz realmente a perseguição, sempre há o risco do arbítrio. Nós não estamos nesta situação. No Brasil, as instituições são basicamente sadias quanto ao crime organizado. Mas nós levamos muito tempo para organizar o Estado brasileiro, e ainda estamos lutando por isso, para que ele tenha meios eficazes de combater o crime organizado. Presidente, a CPI do Narcotráfico é um sucesso de mídia e de opinião pública. E talvez a razão pela qual ela tenha tanto sucesso nessas áreas é que ela está conseguindo fazer alguma coisa contra o crime organizado, está conseguindo botar na cadeia quadrilhas do crime organizado. A imagem da população de São Luiz vendo no telão, na porta da Assembléia Legislativa o pessoal sendo algemado, e batendo palma, é uma imagem impressionante. A CPI tem essa força por quê? Porque há uma sensação generalizada no País de que o Estado está perdendo a guerra contra o narcotráfico, e subestimava o poder e a influência do narcotráfico no País. O Estado está perdendo a guerra contra o narcotráfico? Não é só o Estado, a sociedade. O País começava a perder a guerra contra o narcotráfico, porque o narcotráfico penetra em tudo. Não penetra só nas estruturas do Estado, destrói as famílias, desorganiza os grupos que normalmente dão coesão à sociedade; penetra nas escolas e, obviamente, um processo dessa natureza tem que ser coibido, o Estado tem responsabilidade, mas não é o Estado. Tem que haver uma convergência de esforços. Por isso é importante a CPI. Ela realmente se orientou para combater aquilo que era a sua razão de ser, e não para fazer política ou para acusar partidos. Não. Está discutindo um problema, e a CPI tem instrumentos que, uma vez que o governo apóie, como está apoiando, permite a ela uma agilidade maior. Eu queria chamar a atenção para o seguinte: o governo vem tentando organizar os instrumentos para combater o crime organizado e o narcotráfico. Nós criamos a Senad, que é a Superintendência Nacional Antidrogas, para coordenar as políticas que têm de existir para combater a droga. E coloquei a Senad no meu Gabinete, o general Cardoso, que era o chefe da Casa Militar, hoje é o secretário de Segurança Institucional, e a Senad está sob o comando dele. Estamos fazendo articulação com o Ministério da Justiça. O ministro José Carlos Dias acabou de criar um grupo mais ágil, para dar apoio às ações da sociedade, do Congresso, do próprio governo, para que haja visibilidade e mais rapidez. Nós criamos um Comitê de Controle Financeiro. Se existe uma movimentação financeira suspeita, o que se faz com isso? Para tal foi preciso criar uma lei, aprovada há um ano e pouco, levou tempo sendo discutida, que permite que se informe quando há uma movimentação financeira irregular. Nós mandamos uma lei para o Congresso, que foi aprovada, para permitir que haja a possibilidade de alguém mandar derrubar um avião, se o avião for de narcotráfico. Não havia base legal para isso; nós estamos criando. Falta ainda uma coisa muito importante: a transferência do sigilo bancário para certas instituições. Eu perguntei há pouco: como é que nos Estados Unidos pegaram o Al Capone? Quem pegou o Al Capone? Foi a Receita, não é? Se não houver entrosamento entre a Polícia Federal, Receita Federal e o Banco Central, as informações ficam bloqueadas. Até hoje nós não temos autorização legal para o Banco Central transferir esse sigilo para as instituições, e sobretudo isso dificulta, mesmo agora na CPI. Aí sim, a CPI tem o poder de quebrar o sigilo bancário. Mas eu mandei várias vezes a lei (projeto) de sigilo bancário para o Congresso, e não consegui êxito. Espero que agora tenha. Mas não fica uma sensação de que, da parte do Estado, da parte das leis, da parte da Justiça, da parte da polícia, tudo é muito lento? O narcotráfico é muito rápido. Nós estamos condenados a perder essa guerra? Acho que não, se nós tivermos realmente empenho para ganhar, ganhamos a guerra. Primeiro, é preciso dizer que não estamos dormindo. Nós estamos criando instituições necessárias para que, com persistência, cheguem lá. O Congresso está ativo nessa matéria, a legislação começa a se organizar de uma forma mais consequente. Mas nós temos que pegar são os donos do narcotráfico, quem ganha dinheiro com isso, é a lavagem de dinheiro. Só agora nós estamos tendo as primeiras instituições legais que permitem realmente ir em cima disso, porque se não nós vamos pegar pé-de-chinelo. Vai pegar, na linguagem da gíria, o avião, o jovem que leva a cocaína. E quem financia tudo isso? E quem faz com que haja movimentação internacional de dinheiro? E quem encaminha esse pessoal para fugir para outros países aqui fronteiros nossos e ficar impune? Nós temos que chegar ao coração disso, e isso depende de serviço de inteligência. Só agora o Congresso está votando a Abin (Agência Brasileira de Informação), isso num sentido democrático, porque (esse órgão) tem que ser democrático. Nós precisamos efetivamente acelerar essa luta, mas para isso é indispensável não só o apoio, mas a consciência da sociedade. A escola, a família, a Igreja tem um papel importante nisso, os sindicatos, os próprios partidos políticos... É uma questão de coesão. O que temos que entender é que essa luta é de todos nós, e também da mídia. Presidente, em que pese a necessidade de uma ação articulada, de um serviço de inteligência, antes de o senhor tomar posse no primeiro mandato já havia um clamor, uma exigência de quem lida nesta área de segurança pública, do reforço de material humano e infraestrutura da Política Federal. Porque a droga vem de fora, a arma vem de fora. O Rio de Janeiro é um exemplo clássico de que, se não houver uma repressão forte ao contrabando, não há como a Polícia Militar e a Polícia Civil reprimir, no varejo, o narcotráfico. É verdade. A Polícia Federal tinha 5.000 agentes e delegados. Nós aumentamos, tem 7.000 hoje - um aumento de 40%. Isso tem custo. Mais ainda: a Escola de Formação de Policiais estava desativada: nós ativamos. Eu fui lá. Fui para dar um sinal de apoio à reestruturação da Polícia Federal. Acho que hoje ela está mais apta para isso, está havendo um maior entrosamento agora, com o novo ministro, entre a Senad e a Polícia Federal. O que nós não podemos aceitar no Brasil é essa competição burocrática, quando o povo quer ação. Saber se a responsabilidade é minha ou é sua. É nossa, Nós temos que agir, e agir com presteza. Vamos abrir mais 1.000 vagas na Política Federal, mas é preciso mais ação da própria Polícia Federal. As fronteiras do Brasil são imensas, nós temos 16 mil quilômetros. É muito difícil controlar, nós todos sabemos. Mas nada disso serve de desculpa. As Forças Armadas, uma questão que toda hora vem à baila, têm uma certa participação nesse processo. Vou dar alguns exemplos. Ainda recentemente as revistas semanais publicaram que houve uma grande manobra conjunta na Amazônia, mostrando que nós temos condições de defender nosso território. Mas isso também tem efeito, moral e psicológico, para que os narcotraficantes não pensem que isso aqui é terra de ninguém. Mas você não pode imaginar que as Forças Armadas possam ter um treinamento específico para pegar narcotraficante, porque isso depende, como eu disse, de um serviço de inteligência, e isso a polícia tem, mas para pegar uma pessoa. As Forças Armadas são treinadas para destruição em massa, elas não são polícia, elas são outra coisa. Isso quer dizer que nós devemos ter sempre as Forças Armadas próximas, elas não se negam a cooperar na inteligência, no apoio, na logística, mas na hora de chegar lá e pegar à unha o criminoso, não é papel das Forças Armadas. Presidente, políticos têm reclamado que o Banco Central estaria dificultando o acesso a informações de sigilo bancário. O senhor ficaria surpreso se fosse descoberto envolvimento de alguma instituição financeira na lavagem de dinheiro do narcotráfico? Não, não ficaria surpreso. No Banco Central, não. O Banco Central não tem nada com isso. Mas eu não teria surpresa. No mundo todo é assim. Por onde é que passa o dinheiro? Passa pelo ar, é etéreo? Não, ele tem instrumentos. Há quem manda, deposita
tem gerente que sabe... Agora, como nós temos essa nova lei, sabe-se que há quase 300 pessoas suspeitas de movimentação de dinheiro. Mas para você transformar essa suspeita em algo que requeira ação direta, você precisa da Receita Federal e da Polícia Federal, porque não é só o Banco Central. Há algumas reclamações da CPI, eu vi, conversei com o presidente do Banco Central e ele botou à disposição mais gente (para investigar). O Banco Central pede aos bancos privados... Ora, são milhões de contas, milhões de movimentações diárias; os bancos alegam que leva muito tempo para organizar. Acho que podiam ir mais depressa. E o Banco Central tem disposição, o presidente está ativo nisso, o doutor álvares, que é o diretor de Fiscalização, vai apertar... Os bancos têm que andar mais depressa; acho que a CPI tem razão. O presidente do Banco Central está ansioso para agilizar mais essa questão. Mas repito: acho que precisamos ter uma cruzada nacional contra a impunidade. Cruzada não é uma questão de alguém sair com uma espada aí, fazer bravata para obter voto. Não é isso, não. É a consciência de todos nós numa ação contínua contra a impunidade e contra o narcotráfico. O combate a isso, e o combate à violência, é hoje uma questão essencial para a democracia. É para o bem-estar do povo, das pessoas, para cada brasileiro, para cada brasileira, mas é também para a democracia. Porque se não houver a consciência de que a democracia é eficaz patra combater a violência, é eficaz para combater o narcotráfico, se a população sentir que a democracia são apenas palavras, e que não as protege, fica mal. A proteção do indivíduo é uma ação social. Acho que o governo tem que se empenhar fortemente nessa proteção social. E tem que haver esse entrosamento. O ministro da Justiça está chamando agora aqui os secretários de Segurança de todos os Estados. Porque não podemos ficar também com uma briguinha; polícia militar, polícia civil, polícia federal, polícia não-sei-o- que-lá. Ou se entende que é um só país, que é o Brasil, que é um só povo que está com medo de ser assaltado, de ter na sua família problema com a droga... Ou nós entendemos que é preciso uma consciência muito aguda, ou então perde a batalha. Não é que o governo vai perder a batalha, nós todos é que vamos perder a batalha. Nós não vamos perder a batalha. Nós temos que lutar com muita firmeza para ganhar essa batalha, essa guerra. O senhor não teme que a sociedade tome a dianteira diante dos desencontros das políticas públicas, apesar do senso de urgência ao rito processual, ao Congresso que tem se manifestar... E de repente os ritmos não são coincidentes e todos os projetos no sentido de desarmar a população, de não permitir a posse de arma
a fabricação de arma no Brasil, perda de popularidade, que a população se arme, enfrente essa realidade tomando as rédeas da população? Bem, para que existe Estado, desde a definição clássica de Hobbes? É para evitar que o homem seja o lobo do homem. É isso. Evitar que haja violência de uns contra os outros... Isso já não esta acontencendo, numa certa escala? Não, eu acho que não. Mas eu acho que é preciso estar sempre atento, porque essa é uma função precípua da vida política. No momento em que se aceitar que cada um se arme, estamos perdidos. Eu acho o contrário. Acabei de mandar para o Congresso, acabei não, já faz tempo, uma lei pedindo o desarmamento e a proibição de venda de armas. Vou lutar para conseguir aprová-la. Sei que é difícil. Sempre se encontra, não sei por que, uma coisa que escapa. Mas acho que agora vai haver mais consciência. Eu vou receber no Rio de Janeiro um apelo feito pelo movimento Viva Rio
de milhões de pessoas pedindo que se proiba a venda de arma. Acho que temos que seguir nesse caminho para evitar o outro, porque o outro é o fim da democracia. É o fim mais do que da democracia, é o fim da pólis, da vida em sociedade, da vida civilizada. Nós não podemos deixar isso. E acho que o papel dos meios de comunicação é decisivo nisso também. É chamar a atenção
como estão chamando, e mostrar que há caminhos, que há saída, evitar que tudo vire demagogia, evitar que tudo vire sensacionalismo. Se não houver uma ação permanente, e também um diálogo como nós estamos fazendo aqui, para que a população saiba o que cada um pensa a respeito... Chame alguém que seja contra, por exemplo, a proibição de armas, um relator que é contra... Ele tem lá suas razões. Eu sou democrata, quero ver qual é a razão dele. Será que o povo se convence? Não sei. Vamos chamar. Acho que o que está acontencendo já um pouco isso. Tanto é que se deu voz, através da mídia, a esse grande clamor da sociedade por segurança. O fato de eu mesmo, como pessoa, estar me metendo nesse assunto é porque eu já estou num ponto em que ora, tenho que me jogar eu próprio, o País, o Brasil precisa disso aqui. Não é só ficar negociando com o Congresso, aprova tal lei, não aprova tal lei, a polícia faz isso ou aquilo. Tem que mostrar ao País. O País está realmente, acho eu, sensibilizado e sabendo que existe alguma voz de salvação. Daí talvez essa experiência da CPI... Mas há perigo aqui também, porque você não resolve essa questão do narcotráfico somente prendendo 20, 30 ou 40 pessoas. Você tem que ter estruturas permanentes e organizadas, num marco jurídico que permita ação, para que isso possa avançar. Outro dia eu li que o presidente do Supremo Tribunal fez uma sugestão, que até endossei embora não seja especialista na matéria, que alguma parte do esforço feito é anulado porque não há punição. A pessoa fica impune. E às vezes fica impune porque existem erros na formação do processo. A nossa legislação é muito intrincada, habeas corpus para cá, habeas corpus para lá, em nome da democracia, o que é natural, o que é justo. Mas nós precisamos aperfeiçoar mais isto. Por que não fazer juizados de instrução, como há nos Estados Unidos? Desde o começo você tem um juiz, você tem um promotor público, você tem um policial, acompanhando o processo. Faz um processo na polícia e depois um processo na Justiça. Eu até conversei com o ministro Aloysio Nunes, e isso parece que requer uma mudança da Constituição. No Brasil, tudo está na Constituição. Tudo tem esse negócio de Constituição. Três quintos (do Congresso) para mudar a Constituição. Aí o presidente começa a se envolver com os partidos, a população não gosta, acha que é barganha... Essas são as dificuldades. São reais, a democracia é assim, obriga a essas tratativas longas. Mas por que não fazer uma coisa desse tipo (os juizados de instrução)? Não podemos aproveitar esse momento e andar mais depressa? Na reformulação dos instrumentos de que dispomos? Por que a toda hora o País olha para as Forças Armadas (para combater a violência)? Por que não as Forças Armadas? (pergunta-se). Porque elas têm sentido de missão, sentido de pátria. Então você diz: vai para a fronteira". E ela vai com orgulho. O senhor acha que está faltando sentido de missão à Polícia Federal? Acho. Mas não é só à Polícia Federal. Não quero ser injusto. Eu não sou tonto, e vejo que a Polícia Federal atuou muito nestes últimos tempos. Em Alagoas, lá no Piauí, lá no Maranhão... Ela está muito ativa. Eu não gosto de fazer esses juízos precipitados. Eu diria que isso é geral. Nós temos que ter um pouco mais essa consciência de que nós podemos, se nós quisermos. Se nós quisermos, eu quero criar uma situação que limite a ação impune. Tem que haver punição, senão não adianta. O sujeito volta para cometer o crime. Presidente, violência também se combate com política de geração de emprego e renda. E essa é uma das premissas do PPA. Ora, o PPA no Congresso só gerou polêmica até o momento. Qual é a avaliação que o senhor faz dessa demora na apreciação do Plano Plurianual e das polêmicas envolvendo, neste exato momento, por exemplo, a ameaça do presidente do Senado, Antonio Carlos Magalhães, intervir, se o constrangimento com a indicação do senador Luiz Estevão continuar? Em primeiro lugar, sua premissa é discutível. De que emprego e renda evitam a violência. Veja o exemplo dos Estados Unidos, um dos países mais violentos do mundo, uma das sociedades mais violentas, com estes crimes todos. Não é só assim não. Isso não justifica a fome e a violência. Com violência ou sem violência é preciso gerar emprego, gerar renda para o bem-estar da população. Mas a violência moderna não está ligada a isso, não está ligada diretamente à pobreza. A violência do narcotráfico é outra, ela pega as camadas altas e médias. Ela tem, de outro lado, um aspecto ruim, porque emprega gente de uma maneira malsã. O Rio de Janeiro é a cidade (das grandes) do Brasil que tem a menor taxa de desemprego. Tem 5,2%. Então, não há essa relação direta de desemprego e violência. O desemprego é ruim mesmo. A violência é ruim mesmo, indiferentemente do desemprego. Agora, isso não quer dizer que não se deva gerar emprego, desenvolvimento, e o PPA, o Avança Brasil, é um grande instrumento para isso. Mas vamos olhar as coisas com uma certa perspectiva sobre o Plano Plurianual. O que está acontecendo no Senado, no Congresso, é um debate sobre o PPA. Ele não é o orçamento do ano 2000. O orçamento do ano 2000 já foi feito por nós, pressupondo a aprovação do Plano Plurianual. Se não for aprovado, vai ter que mudar o orçamento. Mas o atraso do Plano Plurianual não põe em risco os investimentos. Agora, claro que seria melhor se eles estivessem debatendo, se é bom ou se é ruim nós termos proposto o Plano Plurianual, ao invés de estarmos debatendo quem é que vai ser o subrelator de uma parte do Planto Plurianual. Isso são percalços da política, mas que tiram o enfoque do principal. Presidente, nas últimas semanas as pressões inflacionárias voltaram a se manifestar, o que é preocupante. O dólar chegou a bater em dois e pouco etc... Nós estamos enfrentando um momento em que há uma certa incerteza de novo se criando na economia. Esse é um problema meramente conjuntural, e daqui a pouco as coisas se acomodam e entramos num círculo virtuoso, ou esses problemas podem ameaçar essa retomada? Como é que o senhor está vendo esse momento da economia? Estou vendo da maneira como você acabou de descrever. Ou seja: por que o Copom, que é quem cuida da taxa de juros, não pôde baixá-la mais? Porque houve certamente aí alguns indicadores, se disse que os preços de atacado subiram. Quando você olhar mais em detalhe, e eu olho, foram alguns dos preços. Alguns são administrados, que são os preços de tarifas públicas, como energia elétrica, gasolina, porque o preço do petróleo subiu lá fora... Outros, são exploração. A questão do álcool não tinha nenhuma razão, foi mera tentativa de especulação e tem que ser combatida imediatamente. Os produtores de álcool romperam um acordo com o governo federal e com o Estado de São Paulo. Mas suspendemos o financiamento para eles. O que não pode é, na primeira oportunidade, querer ganhar mais dinheiro, ao invés de trabalhar de acordo com o que foi combinado. Há outros (preços) que são questão de entressafra, como a carne... Quando você somar esses diferentes fatores, que levam a isso, sabemos que existem algumas pressões, mas pressões localizadas que o governo tem instrumentos para contra-atacar. Sem dúvida alguma nós vamos combater fortemente qualquer tentativa de subida de inflação. A inflação ao consumidor praticamente foi controlada, o preço por atacado é que está preocupando mais, e tem essas questões. A ligação com o dólar é indireta, é psicológica, porque nós só importamos 50 bilhões de mercadorias, para uma produção (PIB) de 800 (bilhões). Então é uma parte muito pequena que influenciaria sobre os preços. É mais psicológico. E também o dólar não chegou a disparar, o sistema hoje é flutuante, nós imaginamos que no ano que vem vamos ter muito menos compromissos externos, e estamos na expectativa confiante de que haverá superávit na balança comercial, e essas pequenas especulações (com o dólar) vão perder força. De modo que, apesar de estarmos atentos, nós guardamos o otimismo, a firme expectativa de que o ano que vem a taxa de crescimento seja de 4%. Nesta última quarta-feira realizou-se no País um dia nacional de paralisação convocado pelos partidos de oposições, movimentos sindicais e pelo MST. O movimento ficou aquém do que os próprios organizadores esperavam. Isso evidentemente foi uma boa notícia para o senhor, porque quando foi convocada essa manifestação, há uns três meses, era dentro de um processo crescente que visava a enfraquecê-lo, emparedá-lo no Palácio, e evidentemente fortalecer a oposição. O senhor teve um primeiro semestre, do ponto de vista político, de cão. Era quase uma crise por semana. De uns tempos para cá, as coisas estão amainando, aquietando, a maiora governista voltou a funcionar no Congresso, as brigas continuam mas não batem mais no senhor, são entre os caciques... O senhor acha que já passou o Cabo das Tormentas, já pode batizá-lo de Cabo da Boa Esperança, já vê terra à vista? Ou a situação ainda pode rolar ali na frente? Eu vejo terra à vista, mas não tenho medo da tempestade. Eu não percebi que houve um dia de protesto, sinceramente. Eu vi muito assim localizado, queimar automóvel... Não gostei. Não gostei, não; achei que não teve efeito. O que não quer dizer que não possa, de repente, haver. Mas não houve. Muito bem. Primeiro, por razões que nós temos hoje uma situação mais esperançosa na economia, inclusive no emprego. A taxa de desemprego vem caindo, pouquinho, mas vem caindo... O senhor está devendo um milhão de empregos pela promessa de campanha. Para gerar quatro milhões de empregos... Eu prometei para quatro anos. Essa conta não vale. Não dá para admitir, não. Eu não sei quantos empregos vamos gerar até o fim do ano. Geramos mais empregos. Outra coisa que eu acho que aconteceu: ah, os governadores vão ficar em rebelião. Aliás, eu tive um esforço grande, os governadores também... Mesmo com os governadores de oposição eu tive um comportamento, digamos, correto com eles. Eu discuto objetivamente a questão do Acre, do Rio Grande do Sul, do Rio de Janeiro, de Mato Grosso do Sul. Eles estão negociando com o Ministério da Fazenda. Não faço perseguição, nunca fiz na minha vida. Sempre trato um governador
ele foi eleito pelo povo... Eu tenho esse estilo, que é meu. As pessoas querem que eu bata na mesa, que vire, que grite. Se eu fizer isso, vou transformar o Brasil num campo de batalha permanente, com demagogia, com gritaria. Não é assim, porque propomos caminhos. Eu acho que essa questão da relação federativa foi sendo desanuviada. O Congresso nunca deixou de votar, a maioria continua lá. Ela é desorganizada? É desorganizada, porque nossos partidos não são propriamente partidos europeus. Eles votam, eu não posso me queixar. Tem que convencer. Às vezes se perde. É natural. A democracia é assim. Então acho que essas coisas aí estão mais calmas também. Eu nunca fiquei com medo nesses seis meses que você chamou de cão. Eu nunca fiquei como gato. Quer dizer, não fiquei fugindo do problema, nem fiquei atiçando tampouco. Fiquei vendo o Brasil. É o meu jeito. Procuro ver, não sei se consigo. Procuro ver mas de mais longo prazo. Procuro ver se as coisas estão caminhando numa certa direção, nem do país, mas do povo, das pessoas. Não vou acirrar brigas só por acirrar brigas; não vou fazer isso. As pessoas às vezes dizem coisas desagradáveis, a gente aguenta algum desaforo... Ah, o presidente deve reagir! Mas eu vou ficar igual a quem bate boca. Não vou bater boca. Vou ver se o caminho está certo. Eu espero que esteja certo e que, com o tempo - não para o meu benefício, mas para o benefício do País -
as coisas avancem.

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