FHC defende Barros e Parente em processo de privatização da Telebrás
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quarta-feira, 23 de junho de 1999
Por Isabel Braga e Adriana Fernandes 
Brasília, 24 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso defendeu hoje, em discurso, a atuação do ex-ministro das Comunicações Luiz Carlos Mendonça de Barros, atual vice-presidente nacional para Assuntos de Política Econômica do PSDB, e do ministro de Orçamento e Gestão, Pedro Parente, no processo de privatização do Sistema Telecomunicações Brasileiras (Telebrás).
O Ministério Público Federal (MPF) ajuizou ontem (23) ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro, outros cinco envolvidos e quatro empresas, por supostas irregularidades na privatização da Telebrás, em 1998. Na visão dos procuradores, o ex-ministro favoreceu o consórcio liderado pelo Banco Opportunity, em detrimento do consórcio Telemar.
Fernando Henrique foi ao ministério de Parente, num gesto de prestígio ao ministro, que também foi arrolado pelos procuradores do MP do Rio no processo, sob a acusação de ter autorizado a concessão da carta de fiança do Banco do Brasil ao consórcio do Opportunity, por interferência de Barros. Parente, na época, presidia o Conselho de Administração do Banco do Brasil (BB) e os procuradores argumentaram que a carta foi concedida contra as normas da instituição.
Depois da solenidade, Parente afirmou estar "indignado" por ter sido arrolado na ação ajuizada pelo MP, mas "que está absolutamente tranquilo" em relação à defesa. "Tudo foi feito rigorosamente dentro das normas", disse. "Meu crime foi ser presidente com conselho do BB, e a ação busca notoriedade às custas de uma pessoa que está hoje na posição de ministro." Parente explicou que o conselho aprovou a concessão de fiança a vários competidores, até mesmo a opositores do Opportunity.
No discurso, o presidente disse que o gestor público, no dias de hoje, tem de ser capaz de gerir, inventar, criar e pode até mesmo quebrar algumas formalidades. "Não é possível mais que o gestor - público ou privado - seja preso numa camisa-de-força de regras burocráticas e que, depois, tenha de prestar contas do crimes que não praticou", afirmou o presidente, explicando que, às vezes, o gestor deixa de praticar uma "formalidade" visando ao interesse público.
"Muitas vezes, questões meramente formais produzem um desaguisado nacional, como se o gestor tivesse utilizado aquela quebra de regras para benefício próprio e não para atender melhor ao sentido social do que ele estava fazendo", criticou o presidente. Fernando Henrique chamou de "hipócritas" os que usam "elementos formais" para criticar a ação do governo e dos gestores com o objetivo de "emperrar" a transformação "fundamental do Estado brasileiro".
O presidente destacou que, atualmente, mesmo ministérios tradicionais - "que sempre foram objeto de clientelismo, burocracia e, vez por outra, corrupção" - estão servindo ao povo. "Não podemos aceitar, a todo instante, insinuações contra a base moral do Estado, contra a base moral dos funcionários e dos gestores e dos que governam, a menos que haja , efetivamente
algo concreto", cobrou Fernando Henrique. "Aí sim, mais do que crítica, tem de haver o afastamento e a punição", completou
pregando a necessidade de recuperação da "dignidade do servidor público".
Segundo Fernando Henrique, há setores mais atrasados no País pensando que "bem administrar é bater na mesa, dar um murro". Para o presidente, eles estão "pensando à moda antiga, como se fosse possível governar uma sociedade, ou um setor dela, ou uma empresa, como se nós fôssemos compostos por "tycoons" dos séculos passados ou flibusteiros (piratas) em passado mais remoto. "Eles tinham sim essas características e que eram apropriadas àquela época."
Em recado direto aos empresários paulistas que criticaram a política econômica do governo nas comemorações dos dez anos de fundação do Instituto de Estados para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Fernando Henrique avisou que "subsídios, taxas de juros protetoras, reserva de mercado, Estado guarda-chuva, lucros fáceis" são coisas do passado. "Esta época acabou", repetiu duas vezes.
Fernando Henrique afirmou que é "lamentável" o fato de algumas pessoas confundirem "o projeto possível e bom para o Brasil com a defesa do passado" e que o governo irá beneficiar "o povo e não os setores que se acastelaram na vida pública". O presidente reagiu a críticas feitas hoje pelo presidente do Conselho de Administração do Grupo Ultra, Paulo Cunha. O presidente do Conselho de Administração do Grupo Ultra afirmou que "o governo cometeu tantos equívocos em sua política econômica que o Brasil se tornou um País sem esperança".
Hoje, Fernando Henrique contra-atacou: "As oligarquias industriais e financeiras que vivem chorando pela falta de esperança no Brasil estão chorando por um passado do qual foram beneficiadas e que não vai voltar."
O presidente chegou a sugerir aos empresários que apontam um futuro negro para o País percorram os Estados para ver as obras do Brasil em Ação . Para o presidente, as obras são a prova de que o País entrará no novo século com um projeto nacional de crescimento, de desenvolvimento, com estabilidade e bem-estar da população.
"Se fosse possível ver os efeitos do Brasil em Ação, seria fácil demonstrar que estamos realizando um projeto nacional no Brasil", comentou. "É pena que nem todos os brasileiros possam, como alguns de nós podemos ou até devemos, percorrer o conjunto do Brasil", ironizou, acrescentando que, dessa forma, essas pessoas poderiam sentir "na prática" as consequências dos programas. "É pena que não sintam o mesmo entusiasmo que sinto diante do que virá pela frente."


