Brasília, 16 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso garante ter sido apanhado de surpresa pela decisão do PSDB, seu partido, de formar um bloco com o PTB. Segundo colaboradores próximos, esse foi um mal menor, na opinião do presidente. Para Fernando Henrique, segundo esses interlocutores, a guerra que culminou no rebaixamento da bancada pefelista na Câmara foi deflagrada pelo próprio PFL, maior prejudicado com a nova divisão de forças. Isso ocorreu quando o partido passou a defender a restrição para o uso de Medidas Provisórias e o reajuste do salário mínimo para o equivalente a US$ 100, teses encampadas pelo presidente do Senado e mais forte liderança pefelista, Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA). Hoje, o presidente da Câmara, Michel Temer (PMDB-SP), reuniu-se com os deputados Paulo Paim (PT-RS) e Luiz Antonio de Medeiros (PFL-SP) para a instalação da comissão do salário mínimo no Congresso.
Na avaliação do governo, mais séria que a formação de um bloco PSDB-PTB foi a iniciativa do PFL de defender o aumento do mínimo, a mais tradicional bandeira da oposição. A ação pefelista, frisam colaboradores do presidente, criou uma série de problemas para o Planalto. "Propor mínimo de US$ 100 é uma afronta ao presidente", disse um interlocutor de Fernando Henrique.
Os assessores garantem que o fato de o PSDB ter agido mal não será motivo para que o presidente venha a concordar em aumentar o mínimo para US$ 100. "O governo só vai dar o aumento possível", informou a fonte. "Ninguém vai aceitar quebrar o governo para atender a uma proposta de um partido político e se o Congresso aprovar esse valor o presidente veta", completou.
As declarações do ministro da Previdência, o baiano e pefelista Waldeck Ornélas, condicionando o reajuste do mínimo a aprovação da emenda que cria a contribuição previdenciária para os servidores inativos, não foram bem recebidas no Palácio do Planalto. "Quem discute número não é ele, é o Ministério do Trabalho com o Ministério da Fazenda", observou um outro auxiliar do presidente, que avalia a iniciativa de Ornélas como partidária. Oficialmente, o porta-voz preferiu não polemizar com o ministro e disse apenas que o presidente considerava esta uma sugestão do ministro da qual ele não tinha conhecimento.
Apesar do descontentamento com o PFL, o discurso oficial do governo é conciliador. O presidente está trabalhando para acalmar o partido e evitar dissabores no Congresso. "O presidente apelou à unidade da base" e "defendeu a importância da manutenção do PFL nessa coalizão, para garantir a governabilidade até o final de seu mandato", acentuou hoje o porta-voz do Palácio do Planalto, Georges Lamazire, depois de encontro do presidente com o líder pefelista na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE).
Fernando Henrique chegou a dizer que uma candidatura futura de Inocêncio à presidência da Câmara "tem legitimidade", embora considere prematura a discussão desse assunto agora. Segundo Lamazire, o presidente não tinha conhecimento da formação do bloco PSDB-PTB e o governo não participou das articulações que resultaram na aliança. Embora reconheça que existem problemas na base, Fernando Henrique insistiu que é preciso trabalhar pela coalizão porque "ela não é arbitrária, é resultado das urnas".
O presidente, que tem demonstrado interesse em manter a união entre os partidos da base aliada, condenou a ação do líder do seu partido na Câmara, Aécio Neves (MG). Para ele, a teimosia dos tucanos, liderada ostensivamente por Aécio, "foi uma jogada errada". Na semana passada, Fernando Henrique já havia convocado o líder tucano para lhe pedir que desistisse da idéia de aliciar parlamentares de outros partidos da base, para evitar um racha na aliança.

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