Brasília, 13 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso cuidou pessoalmente, durante todo o dia de hoje, das articulações para manter em seu governo o ministro da Justiça, Renan Calheiros, pelo menos a curto prazo. Dentro do PMDB já existe uma certeza: Renan só continuará no ministério caso receba um tratamento que compense todo o desgaste sofrido na crise da semana passada. O termômetro será testado amanhã (14), na reunião que o presidente terá com os ministros que não participaram da conversa da semana passada, incluindo o ministro da Justiça.
Outra exigência dos peemedebistas é que críticas vindas de aliados, como foram as declarações durante a semana do ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga (PSDB), e do governador paulista, Mário Covas (PSDB), não voltem a ocorrer. Esse aviso foi dado pessoalmente a Fernando Henrique pelo presidente do PMDB, senador Jader Barbalho (PA), que hoje pela manhã esteve por quase três horas no Palácio da Alvorada.
"Se alguém pensa em afastar o PMDB do governo, ou tirar o ministro Renan Calheiros, está redondamente enganado", ameaçou Jader.
À tarde, o presidente recebeu dois tucanos - o ministro Pimenta e o líder do governo na Câmara, Arnaldo Madeira (SP) - para tentar apagar definitivametne o incêndio na base aliada.
Apesar da expectativa dos peemedebistas, o presidente deverá repetir nesse encontro de amanhã o recado dado a um grupo de ministros na quarta-feira passada, quando exigiu dos seus colaboradores fidelidade total. "O presidente pretende repetir o que disse aos ministros na primeira reunião: é cara ou coroa, ministro é do governo, e não do partido", relatou Pimenta ao deixar a residência oficial do presidente, onde almoçou e permaneceu por mais de três horas.
"Tudo vai depender de como Renan será tratado", adverte o vie-líder do PMDB na Câmara, Henrique Eduardo Alves (RN). "Se Renan sair, a crise pode se alastrar no PMDB e afetar seriamente o núcleo do partido que mais apóia o presidente Fernando Henrique", completa ele, cobrando uma manifestação pública de apoio ao ministro da Justiça. "O PMDB quer poder continuar colaborando com o governo", sustenta o presidente da Câmara, deputado Michel Temer (PMDB-SP).
Mesmo com o esforço do presidente Fernando Henrique, a paz não deve ser selada tão rapidamente, como ele deseja. O tom do ministro Pimenta da Veiga, ao deixar hoje o Alvorada, foi sintomático. "Da mesma forma que questões partidárias não devem interferir na vida do governo, o governo não vai cuidar das questões internas dos partidos", avisou o tucano. "Cada partido que cuide de si."
Pimenta demonstrou que os atritos na base não são fáceis de ser resolvidos. "O presidente não vai discriminar, nem distinguir ninguém, vai tratar todos iguais", disse, antecipando o clima da reunião de a,amanhã.
Reforma - Segundo Pimenta da Veiga, não haverá nenhuma modificação de Ministério neste momento. "O governo é este que está aí e não vai ser modificado", garante. Mas, embora o ministro tucano negue mudanças no primeiro escalão, é numa reforma ministerial esperada para acontecer até agosto que o governo pretende recompor o rombo causado no PMDB, com uma "transição pacífica" no Ministério da Justiça.
Na avaliação de auxiliares próximos de Fernando Henrique
seria esse o momento adequado para substituir Renan, cuja mágoa com o governo será difícil de ser curada.
Além do ressentimento, o ministro do PMDB acabou ficando muito desgastado dentro do governo, segundo um interlocutor do presidente. A idéia da transição pacífica é aceita pelos próprios peemedebistas. "Lá para frente, na reforma ministerial
o PMDB pode muito bem indicar outro nome para substituir Renan", concordou um dirigente peemedebista. "Ficaria bem para o partido e para o governo, mas agora ninguém aceita a saída de Renan", completou.
Tortura - O ministro Pimenta da Veiga confirmou a intenção do governo de empossar na direção da Polícia Federal o delegado João Batista Campelo, acusado de ter participado de sessões de tortura na década de 70. "O governo fez uma avaliação e não constatou nada que inviabilizasse Campelo, a nomeação já está feita", afirmou Pimenta.
O ministro ressaltou que, havendo provas contra Campelo, o governo tomará providências. "O governo não pode agir sob suspeitas", insistiu ele.

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