Comandatuba, BA, 21 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje que os manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) têm mentalidade "fascista" e estão "descambando para a baderna". Os assessores do presidente admitiram que ele está estressado com as manifestações dos sem-terra. Fernando Henrique passeou de barco hoje e amanhã (22) participa das comemorações dos 500 anos do descobrimento, em Porto Seguro. Índios e sem-terra pretendem fazer protestos no local.
O que mais preocupou o presidente foi a recente depredação da Secretaria de Segurança Pública do Pará, durante manifestação organizada pelo MST. "Em que lugar do mundo se viu falar que manifestante invade a sede da Secretaria de Segurança Pública?", disse. "Essa gente tem a mentalidade fascista".O presidente disse que em um passado recente havia motivos para manifestações contra estes locais, lembrando das das torturas que ocorriam durante o regime militar. "Mas agora é o oposto", disse. "Esse movimento está descambando para a baderna".
Os assessores do presidente admitiram que as autoridades estão procupadas com a possibilidade de conflitos durante as comemorações dos 500 anso. O chefe do Gabinete Institucional da Presidência, general Alberto Cardoso, viajou ontem (20) à noite para a Bahia para negociar um acordo contra a violência durante a festa dos 500 anos.
Encontro -No entanto, Fernando Henrique não vê nenhum "perigo" para o governo nas manifestações do MST, por achar que se trata de "meia dúzia de gatos pingados", mas afirmou que está havendo um desrespeito à democracia. Ele disse que vai receber os índios porque houve pedido à Presidência, mas esclareceu que os sem-terra não solicitaram um horário em sua agenda. Questionado se há possibilidade de um encontro "forçado", como teria sugerido o MST, o presidente foi duro: "Estão muito enganados, ninguém força encontro com presidente da República."
Os manifestantes do MST estão "passando dos limites", segundo o presidente. Ele demonstra irritação ao falar de manifestantes que há algum tempo jogaram uma pedra no presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer, e com recente manifestação em que alguém substituiu a faixa da Bandeira Nacional por críticas ao governo.
Fernando Henrique disse que os manifestantes do MST usam bandeiras da Central Única dos Trabalhadores (CUT) sem a autorização da entidade. Ele disse que há também "um grupelho do PSTU muito agressivo".
Excluídos - O presidente disse estar de acordo com as manifestações pacíficas em favor dos excluídos. Mas afirmou que não pode acabar de uma vez com todos os problemas sociais do Brasil. Os dados, afirmou, já começam a mostrar crescimento do emprego, mas o "desequilíbrio" deve perdurar por "um tempo", em função do crescimento populacional. Ele garantiu ter desapropriado área equivalente a três vezes o tamanho da Bélgica
com assentamento de mais de 300 mil famílias."Todo o esforço do País é para acabar com a exclusão", disse.
Mínimo - Se a economia suportasse, disse o presidente, seria baixado um decreto com salário mínimo de R$ 1.000,00. "Mas isso explode a economia", disse. Ele negou que o líder do governo, Arthur Virgílio (PSDB-AM), tenha pensado em deixar o cargo. Fernando Henrique afirmou que a compensação para o baixo valor do salário mínimo são os pisos regionais, por Estado. "Porque não votam isso?", disse, fazendo referência ao Congresso.
O presidente caminhou hoje pela manhã pela praia da Ilha de Comandatuba e à tarde passeou no iate Royal Chalotte I. A náutica do Hotel Transamérica alugou sete barcos para a Presidência, cada um com capacidade que variava de 4 a 11 passageiros. Somente a diária do bangalô onde o presidente e dona Ruth estão hospedados custa R$ 1.300,00 por dia.

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