FHC critica FMI indiretamente por exigir mais cortes em despesas do governo
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segunda-feira, 22 de março de 1999
Por Isabel Braga 
Brasília, 23 (AE) - O presidente Fernando Henrique criticou hoje, indiretamente, o Fundo Monetário Internacional (FMI), durante discurso a empresários na Confederação Nacional da Indústria (CNI), por exigir mais cortes em despesas do governo brasileiro para a concessão dos empréstimos. "Muita gente que fala em cortar mais não sei quantos pontos do PIB (Produto Interno Bruto) nunca sentou responsavelmente numa cadeira para tomar decisões e não sabe que as decisões afetam o povo", argumentou o presidente. "Quando afeta o povo, é mais doença, mais mortalidade infantil, e mais dificuldades para o povo e há limites para isso." Fernando Henrique avisou ao FMI que o governo cumprirá a meta de criar um superávit de 3% do PIB porque o Congresso deu condições para isto, mas que não permitirá que as medidas de corte afetem a população mais pobre do País. "O governo irá criar o superávit de 3% do PIB, que é muitíssimo para uma economia em relativa depressão, em crise, mas não vamos fazer sem prestar muita atenção à rede de proteção social que um país como o Brasil não pode dispensar", disse.
Fernando Henrique admitiu que poderá fazer novos cortes em programas sociais, reformulando e acabando com o desperdício de recursos, mas sem que isso prejudique os atendimento direto à população. "Haverá aí, permanentemente, um olho para saber se os programas que chegam na ponta não serão atingidos." Ele argumentou que o mercado emite os sinais, mas que cabe ao governo corrigir estes sinais e impor limites "para essa espécie de voracidade para que o governo corte, corte, corte".
O presidente garantiu ainda que fará "o que for necessário para manter a estabilidade, para combater a inflação para garantir que a proporção dívida/PIB seja decrescente". "Mas com a consciência moral de que estamos dirigindo um país muito desigual e que as populações mais pobres não podem suportar custos além de certo limite." No início do longo discurso, Fernando Henrique queixou-se da dificuldade de convencer o Departamento do Tesouro Americano sobre as necessidades dos países em desenvolvimento.
"O ministro Delfim (Netto (PPB-RJ) tem mais experiência sobre departamento de Tesouro, sabe que, às vezes, é difícil convencer o Departamento do Tesouro Americano de certas obviedades", comentou o presidente, acrescentando que isso acontece "porque são obviedades para os que estão deste lado de cá do mundo, mas não são obviedades para os que estão do outro lado do mundo e nem são do interesse dos que estão no outro lado do mundo".
Segundo Fernando Henrique, o economista John Maynard Keynes havia proposto, durante a Conferência de Bretton Woods, em 1944, a criação de um Banco Central dos bancos centrais, um "emprestador de última instância" e a criação de um fundo de contingência para oferecer recursos aos países que, nos processo de integração à ordem mundial, tivessem alguma dificuldade de ordem monetária. Desde esta época, o Departamento de Tesouro não aceitava estas idéias. "Parecem ser tentativas de evitar o risco, tentativas de evitar a necessidade da competição, quando, na verdade, não é isso", criticou o presidente. "Trata-se de situações estruturais diferentes no mundo."


