Rio, 21 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso criticou duramente a política alfandegária dos países da União Européia (UE) em seu discurso de abertura do Fórum Empresarial Mercosul-União Européia. "O comércio internacional está longe de apresentar um quadro equilibrado e tranquilizador", apontou, referindo-se às barreiras técnicas, sanitárias e fitossanitárias que dificultam o acesso de produtos sul-americanos aos principais mercados europeus. "Leis de defesa comercial são aplicadas de forma pouco compatível com as normas multilaterais, quase sempre para a proteção de indústrias obsoletas".
O presidente estendeu aos Estados Unidos às críticas à política protecionista. "Talvez, em defesa da União Européia, posso dizer que os Estados Unidos não ficam atrás", afirmou, provocando um dos poucos momentos de aplausos da platéia de cerca de cem empresários sul-americanos. Segundo estatísticas apresentadas pelo presidente, as exportações da UE para o Mercosul aumentaram 274% de 1990 até 1996, enquanto as importações cresceram apenas 25%. "Nos últimos três anos, os saldos comerciais do Mercosul com o mercado comunitário evoluíram de uma posição de superávit para uma situação de déficit", lamentou.
Fernando Henrique centrou seu discurso na importância do fortalecimento das relações comerciais, não apenas na América do Sul, mas também o estreitamento da parceria do Mercosul com a União Européia. Nas críticas, o presidente deu destaque à questão da agricultura.
Segundo ele, os países desenvolvidos gastam, por ano, US$ 160 bilhões para impedir que a sua agricultura seja exposta às regras de concorrência. "E pior ainda: para distorcer, com o uso de subsídios, a concorrência em terceiros mercados", protestou. A linha adotada pelo presidente na abertura do encontro deu o tom da posição que o Brasil pretende adotar em junho, quando será realizado no Rio uma reunião de cúpula entre os países do Mercosul e da UE. O fórum atual é uma espécie de preparação para essa próxima reunião.
Fernando Henrique lembrou, porém, que a UE é também o principal investidor estrangeiro nos quatro países que compõem o Mercosul, mas esses investimentos diretos concentram-se em setores estratégicos e de forte fator agregado. Destacando a expressiva participação de empresas européias nos processos de privatização do Brasil e Argentina, o presidente declarou que esse tipo de cooperação é importante para estreitar as relações econômicas, mas não deixou de criticar as dificuldades impostas pela Europa para as importações dos países sul-americanos.
As queixas contra o protecionismo europeu, especialmente quanto aos produtos agrícolas, foram o tema principal não apenas do discurso de Fernando Henrique, mas dos demais representantes do bloco do Mercosul.
Os presidentes Julio Maria Sanguinetti, do Uruguai, Raúl Cubas, do Paraguai e o ministro das Relações Exteriores da Argentina, Guido de Tella (que falou em nome do presidente argentino Carlos Menem) também apresentaram um discurso afinado nas críticas à UE. O presidente, ao comentar o contraste entre o protecionismo europeu e dos EUA e a liberalização das economias sul-americanos
brincou dizendo que o Brasil chegou a importar até patins de gelo. "Esses patins afundariam nas areias de nossas praias e não poderiam ser usados para descer o morro do Corcovado", ironizou.
Entendimento - A necessidade de entendimento entre os países do Mercosul para superar o momento de crise econômica também foi enfatizada por Fernando Henrique em seu discurso. "Nas últimas semanas, fiz questão de encontrar-me individualmente com cada um de meus colegas do Mercosul", afirmou o presidente. "Essas conversas, francas e diretas, como têm sido ao longo do processo de integração, evidenciaram o espírito de solidariedade que o Mercosul reforçou entre nossos países".
Para Fernando Henrique, as turbulências dos mercados não irão afetar as negociações do bloco comercial. "Dificuldades conjunturais não nos desviarão do rumo traçado", garantiu. O presidente não minimizou o impacto da crise sobre o Brasil e, consequentemente, sobre os demais países sul-americanos, mas demonstrou otimismo quanto à superação rápida das dificuldades. "Ninguém ignora que enfrentamos turbulências e sofremos com ataques especulativos", disse Fernando Henrique, acrescentando que as vulnerabilidades terão de ser vencidas, com algum sacrifício.
"O rigor do ajuste fiscal atinge todos os brasileiros", reconheceu. "Mas aí está a base para a redução da taxa de juros para a preservação da estabilidade e para a retomado do crescimento". Com essa declaração, ele deixou claro que o governo não pretende abrir mão da dura política de cortes administrativos para atender à meta traçada no acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI).

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