Lisboa, 14 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso chamou a limpeza étnica praticada pelos sérvios no Kosovo de prática neonazista. "Achamos que há boas razões para que a Otan
a Europa e que nós todos estejamos preocupados com essa prática de neonazismo. Essa questão de limpeza racial é inaceitável", disse o presidente no aeroporto militar Figo Maduro, em Lisboa - onde o avião presidencial parou para reabastecer a caminho da Alemanha e desembarque da primeira-dama Ruth Cardoso.
O presidente disse que concorda com os motivos apresentados para a intervenção da Otan: "Defendemos as razões da intervenção da Otan. Não somos solidários, nem poderíamos ser, com as discriminações e massacres que estão ocorrendo na Iugoslávia." O presidente criticou o fato de os bombardeios da Otan terem sido feitos sem a aprovação do Conselho de Segurança das Nações Unidas: "Nós lamentamos que isso tenha sido feito deixando as Nações Unidas à margem e o Conselho de Segurança. Não se pode perder de vista a legitimação dos atos." Fernando Henrique reafirmou que o país não está alinhado com as posições da Otan. "Não deixamos de ter sempre a nossa posição. O Brasil não está disposto a ser seguidista. O Brasil sempre teve em matéria de política externa uma posição própria, de cooperação. Somos indiscutivelmente favoráveis ao sistema das Nações Unidas."
Segundo Fernando Henrique, um dos problemas da ação da Otan na Iugoslávia é a reação que os pessoas estão tendo: "Nos preocupa o fato de a opinião pública mundial está olhando esse bombardeio com mais do que apreensão, com inquietação, perguntando o que é que vai acontecer depois? Isso resolve?" O presidente afirmou que a posição brasileira é favorável à negociação. "Nós achamos que é preciso ter mais esforços de negociadores. Eu vi que a Madeleine Albight (secretária de Estado dos EUA) encorajou a que a Rússia entrasse na mediação. O Brasil sempre é favorável a processos negociadores."
Para Fernando Henrique, a situação nos Balcãs prova a necessidade de modificações na ONU. "O importante mesmo é a modificação de todo o sistema, não só das Nações Unidas. O mundo hoje se globalizou, sobretudo os sistemas financeiros e depois o produtivo. Tem que globalizar também as questões políticas."
Ele considerou um interesse brasileiro a modificação da ONU, o que não significa obrigatoriamente um lugar permanente para o país no Conselho de Segurança. "O Brasil quer participar, não precisa ser do Conselho de Segurança, mas das várias mesas de negociações que discutem o destino do planeta. O Conselho de Segurança é um pedacinho que nós achamos que devia ser o mais importante, por isso estamos reclamando do fato de ter sido marginalizado nessa questão da Iugoslávia."
Ao desembarcar, o presidente aparentava cansaço, mas demonstrava bom humor. Durante as duas horas em que o avião permaneceu em Portugal, Fernando Henrique conversou com o embaixador Synésio Sampaio Góes, que foi seu chefe de gabinete no Itamaraty, e com o chanceler Luiz Felipe Lampreia. A primeira-dama desembarcou em Lisboa, acompanhada pela embaixatriz, para ficar dois dias na capital portuguesa. "É uma visita privada, ela vem para descansar", afirmou o embaixador. O programa de Ruth Cardoso não foi revelado, mas estavam previstas visitas a museus e casas de espetáculos. O cantor Milton Nascimento apresenta-se em Lisboa com o show Tambores de Minas.

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