FHC condena atitude de Lopes
Brasília, 26 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso condenou hoje a atitude do ex-presidente do Banco Central Francisco Lopes, que se recusou a assinar o termo de compromisso da CPI dos Bancos, o que impediu seu depoimento aos parlamentares. "O presidente esperava que o sr. Francisco Lopes prestasse contas ao País de seus atos, como agente público", afirmou o presidente, por intermédio de seu porta-voz-adjunto, Georges Lamazire, ao acrescentar que Lopes "deixou de cumprir com essa obrigação hoje perante o Senado Federal". "A solidez das instituições democráticas do País assegura a plena apuração dos fatos", disse o presidente.
Fernando Henrique ficou surpreso com a atitude de Francisco Lopes, principalmente porque esperava que ele repetisse, no Senado, os argumentos que apresentou a ele, por telefone, na semana passada, quando se convenceu da inocência do ex-presidente do BC. Embora reconheça que, do ponto de vista pessoal, os advogados tenham agido de forma correta, o presidente considerou "um fiasco" a postura de Lopes para a imagem do governo e da instituição.
O presidente, que havia elogiado a integridade de Lopes na Europa e condenado a ação do Ministério Público, que invadiu a casa do economista, insistiu na necessidade de transparência no caso e está convencido de que amanhã (27) o ex-diretor de Fiscalização do banco, Cláudio Mauch, apresentará a defesa do BC. Embora não admita que Mauch possa repetir o que fez Lopes, o presidente está convencido de que o Banco Central deve explicações à população. "Alguém tem que falar", afirmou o presidente a assessores.
Hoje, já seguindo orientação de Fernando Henrique, o atual presidente do BC, Armínio Fraga, declarou em Washington, que a atual diretoria do banco está pronta para colaborar com a CPI dos Bancos e pretende cumprir os objetivos de política econômica. "A instituição não pode ser vítima de atitudes pessoais", declarou Fraga.
Segundo informações obtidas no BC, a instituição teme que, com a atitude de Lopes, o banco recomece a ser chamado de "caixa preta" e a partir daí se torne um novo alvo de investigações.
Mas, no governo, há quem ache que a CPI extrapolou nas suas funções, sob a alegação de que não poderia ter dado voz de prisão para Francisco Lopes, nem obrigá-lo a depor contra si mesmo. Por isso, a área jurídica do governo poderá abrir três frentes de ação: votar projeto da Lei Orgânica do Ministério Público, fixando em lei os poderes e limites da instituição; votar a nova Lei de imprensa, já que considera que, em qualquer País do mundo, as acusações da imprensa já teriam levado a processos e votar o projeto de quarentena dos dirigentes do BC.
DIA - O presidente dedicou o dia a articulações políticas. Pela manhã, no Palácio da Alvorada, se reuniu com o novo assessor especial, ex-deputado Moreira Franco, conversou com o ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, almoçou com o ministro da Saúde, José Serra e se reuniu com o presidente do PMDB e mentor da CPI dos Bancos, senador Jáder Barbalho.
Na hora da prisão de Chico Lopes, de acordo com auxiliares, o presidente estava recebendo o presidente mundial da Alstom, empresa francesa que atua no setor de geração, transmissão e distribuição de energia, Pierre Bilger. Assim que eles saíram, os assessores informaram o presidente da prisão de Lopes. Em seguida, o presidente do Senado, Antônio Carlos Magalhães, telefonou para Fernando Henrique, e tiveram uma rápida conversa. O presidente demostrou a sua indignação com a postura de Lopes e reiterou que ele era um agente público e que homens públicos devem explicações à sociedade.
No Planalto, há opiniões divergentes sobre a atitude da CPI de prender Lopes. O que preocupou alguns integrantes do governo, foi a possibilidade de abertura de um confronto entre poderes. O governo entende que esse confronto é perigoso, embora auxiliares do presidente achem que o Congresso tenha cumprido sua função, mandando prender Francisco Lopes. "Nunca é bom tentar desmoralizar as instituições", observou um interlocutor do presidente, ao lembrar que essa atitude do ex-presidente do BC pode abrir precedentes para outros convocados não se apresentarem para depor.





