FHC compara Itamar a traidor da Inconfidência
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domingo, 21 de fevereiro de 1999
Por Wilson Tosta 
Vila Velha, ES, 22 (AE) - Sem mencionar o governador de Minas Gerais, Itamar Franco (PMDB), o presidente Fernando Henrique Cardoso criticou-o hoje ao comparar a Joaquim Silvério dos Reis, traidor da Inconfidência Mineira, os governantes que -como Itamar- se recusam a fazer o ajuste fiscal. Segundo o presidente, "tem muita gente cuja corda na mão é de Silvério dos Reis, não de Tiradentes: não têm coragem de enfrentar os problemas e buscam refúgio em falsidades". As críticas foram feitas em discurso na abertura do ano letivo do País, na Escola Senador João de Medeiros Calmon, marcada por tensão e protestos de oposicionistas, que da rua vaiaram e jogaram pedras no telhado do pátio da instituição.
"Tem gente que faz demagogia e enforca o povo", disse Fernando Henrique, em entrevista após o discurso. Na conversa com os repórteres, ele disse que "neste momento, espera que ninguém" seja Silvério dos Reis. O presidente tentou aparentar naturalidade ao abordar a recusa de Itamar em comparecer ao encontro dos governadores com ele, na próxima sexta-feira, em Brasília. "Quando a gente recebe um convite, pode ir ou não ir, a decisão é dele (de Itamar)", afirmou. Fernando Henrique afirmou que discutirá com os governadores os limites da ação do governo federal e o que pode ser feito de concreto no momento.
O próprio grupo político de Itamar já fez paralelos entre a ação do governador de Minas, que decretou a moratória da dívida de Minas com a União, e a de Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, alferes que participou da Inconfidência Mineira. A conspiração de Tiradentes surgiu da reação à cobrança extorsiva de impostos pela Coroa portuguesa e tentou tornar o Brasil independente, no fim do século XVIII. O movimento foi abortado pela ação de Silvério dos Reis, um conspirador que delatou os companheiros ao governo português. Tiradentes morreu enforcado, no Rio de Janeiro, e teve seu corpo esquartejado e espalhado entre Minas e Rio.
A menção a Silvério dos Reis no discurso aconteceu quando Fernando Henrique recordava o governo capixaba anterior, de Vitor Buaiz (PV), também sem mencioná-lo. "Este Estado sofreu muito", afirmou. "Fiz o que pude." Segundo ele, se o governo naufragou, "se enforcou na sua própria corda, se enforcou na corda de Silvério dos Reis, não de Tiradentes". Fernando Henrique afirmou que o Espírito Santo "pagou um alto preço por isso, mas agora tem um governador de coragem e determinação, que está fazendo o que é necessário".
Ato - Em um só lugar, o presidente abriu o ano letivo, inaugurou a Escola Senador João de Medeiros Calmon e a primeira sala de aula do Programa Nacional de Informática na Educação (Proinfo), mas seu principal objetivo estava fora dali. Fernando Henrique queria demonstrar seu total apoio ao governador do Espírito Santo, José Ignácio Ferreira (PSDB) e, principalmente, à sua política, de ajuste rigoroso das contas públicas, com demissões, cortes de verbas, privatizações e pagamento em dia da dívida do Estado.
José Ignácio fez um discurso de apoio ao presidente Fernando Henrique Cardoso e de crítica aos governadores de oposição. Segundo ele, "o problema do País não é político, não é econômico, mas fiscal". O governador reiterou que continuará a pagar pontualmente a dívida do Estado com a União e elogiou a posição do governo federal.
"A União Federal assumiu cerca de R$ 120 bilhões dessas dívidas, refinanciando-as com prazos de 30 anos a juros de 6% ao ano, fixos, independentemente de crises asiática, russa ou qualquer outra", discursou. "A União, por conta dessa dívida, já chegou a pagar 49%, por ocasião da crise russa, enquanto persistiam, fixos, os juros a 6% a ela pagos pelos Estados." Ele reiterou sua lealdade a Fernando Henrique e sua distância dos governadores de oposição. "Aqui proclamamos, senhor presidente, a leal cooperação em lugar do aventuroso enfrentamento que não conduz a nada construtivo." Apesar do discurso, José Ignácio não perdeu a oportunidade para fazer reivindicações ao presidente -algumas idênticas às dos governadores oposicionistas que criticou. "Na reunião dos governadores com Vossa Excelência, o Espírito Santo vai dizer que quer soluções estruturais para os seus problemas de déficit fiscal", afirmou. Quer capitalizar o seu fundo de aposentadoria
quer discutir critérios de ressarcimento da Lei Kandir e questões relativas ao Fundo de Estabilização Fiscal (...).


