Brasília, 27 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje que considerou "um horror" o que aconteceu na Febem em São Paulo, na segunda-feira, quando quatro menores foram mortos durante rebelião - um deles decapitado a pancadas. O presidente disse que "todos" devem ajudar o governador Mário Covas a resolver o problema. Os parlamentares da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados estarão, nos próximos dias, em São Paulo para debater com Covas a criação de um projeto alternativo de ressocialização de menores.
Fernando Henrique disse, por intermédio do porta-voz, Georges Lamazire, que qualquer cidadão brasileiro fica horrorizado com as cenas que ocorreram na Febem. Apesar de acreditar que todas as pessoas podem ajudar a solucionar o problema, ele deixou claro que pessoalmente ainda não sabe como o governo federal pode ajudar Covas. Hoje, o secretário Nacional dos Direitos Humanos, José Gregori, reafirmou que está disposto a adotar um plano de emergência em conjunto com o governo paulista.
O presidente disse que o problema da Febem é "uma questão da alçada estadual". Fernando Henrique comentou que a questão "não é financeira" e "envolve outros tipos de decisão", mas sem entrar em detalhes. Viagem - A Comissão dos Direitos Humanos da Câmara aprovou hoje relatório da subcomissão que viajou a São Paulo no mês passado. O documento inclui entre as propostas um requerimento ao governo paulista para que apresente um "cronograma de ação" para descentralização das unidades da Febem. A viagem a São Paulo para discutir com o governador um projeto para substituir a Febem foi uma forma que o presidente da Comissão, Nilmário Miranda (PT-MG), encontrou para conciliar as várias propostas dos deputados, que debateram sobre a Febem hoje, na Câmara.
Alguns parlamentares queriam criar uma "comissão de emergência" para cobrar ações do governo paulista. Havia deputado querendo a convocação do governador Mário Covas para dar explicações. Vários parlamentares da Comissão de Direitos Humanos se mostraram revoltados com o que chamaram de falta de ação do governador Covas frente às constantes fugas na Febem. A deputada Rita Camata (PMDB-ES) disse que "está faltando ação política do governador", apesar do que ela chamou de "compromisso" de Covas com os direitos humanos. "Eu falei para ele que ele tem a chave do cofre", disse Rita, numa referência aos R$ 18 milhões que São Paulo dispõe em caixa para investir em adolescentes infratores. Emoção - O depoimento do deputado Emerson Kapaz (PSDB-SP) deixou vários parlamentares da comissão emocionados. Kapaz disse que no dia em que visitou a unidade de Tatuapé com a subcomissão toda a ala de garotos de 12 anos começou a gritar atrás das grades: "amoras, amoras...". Os parlamentares da subcomissão olharam para o lado e viram vários pés de amora e começaram a levar para os garotos. "Para mim ficou a imagem de quem estava alimentando animais no zoológico", disse o deputado.
Kapaz, que foi secretário de Covas no primeiro mandato, disse que ouviu o governador dizer que falhou e que a culpa é também da sociedade. O deputado tomou a iniciativa de procurar representações do empresariado para tentar criar "bolsas de emprego" específicas para menores que estão saindo da Febem. Deputados - Alguns deputados estaduais de São Paulo viajaram a Brasília para acompanhar os debates sobre a Febem. A deputada Célia Leão (PSDB-SP) disse que o governo paulista "não é incompetente", mas afirmou que se estivesse no lugar de Mário Covas não aceitaria o argumento de prefeitos que não querem a construção de unidades de recuperação de menores. "Chegamos a um ponto que é necessário obrigar os municípios a pelo menos assumir os seus menores", disse, "O governo do Estado tem que achar terrenos e impoor que os municípios assumam".
O deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) disse que o ministro da Justiça, José Carlos Dias, "deveria sair da cadeira" e combinar com o governador Mário Covas uma solução de emergência para a Febem. Gabeira foi o primeiro deputado a sugerir que a Comissão dos Direitos Humanos da Câmara viajasse a São Paulo e ajudasse a encontrar uma solução.

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