FHC chama oposição de 'irresponsável e injusta'
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terça-feira, 19 de outubro de 1999
Por Isabel Braga 
Brasília, 20 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso chamou hoje a oposição de "irresponsável, injusta", acusou-a de "usar de má-fé para enganar o povo" e defendeu a cobrança dos inativos, alegando que está estabelecida no Brasil uma situação de desigualdade. "Aqui, pelas decisões jurídicas tomadas, quem estiver trabalhando e quiser ganhar mais, deve pedir, mais depressa possível, a aposentadoria", ironizou o presidente, acrescentando: "É impossível; é uma situação patética para um país, embora jurídica."
Os ataques foram feitos às vésperas da reunião com os governadores e do envio da emenda que permitirá a cobrança previdenciária dos servidores públicos inativos.
As declarações foram feitas em encontro com empresários do setor de alimentos, comércio e serviços, que foram ao Planalto manifestar total apoio ao governo.
Segundo Fernando Henrique, nem mesmo o fato de que a medida possa afetar a popularidade dele "não o apavora". "Impopular, quando se explica, é a defesa do privilégio, do privilégio dos ricos, que se fosse dos pobres, mas não." Fernando Henrique enfatizou que a aprovação da emenda dos inativos não é apenas uma "questão de equilíbrio fiscal, mas uma questão de justiça". "É um setor tão pequeno, pega menos de 1 milhão de pessoas", comentou. "Não é possível que o conjunto da sociedade fique com a conta de R$ 35 bilhões de reais, que com os juros vai quase a R$ 50 bilhões todo ano, para manter uma situação de desigualdades e privilégios." O presidente repetiu várias vezes que os inativos vão ganhar mais do que os que estão na ativa.
De acordo o presidente, além da situação de desigualdade para com os servidores da ativa, o "privilégio" dos inativos públicos também contrasta com os aposentados do setor privado. Fernando Henrique afirmou que o teto máximo da aposentadoria privada é de dez salários mínimos e que, em média, eles aposentam-se com dois ou três salários mínimos e 60 anos. "Há outra desigualdade aí, e tem de ser corrigida", disse.
"Direito é uma coisa, privilégio é outra", atacou. Sem dar aumento linear aos funcionários públicos desde o primeiro mandato, Fernando Henrique afirmou ainda que o fato de o governo não poder cobrar a previdência dos servidores inativos está "bloqueando" a possibilidade de melhorar o salário dos que estão em atividade. "Cada vez que melhora aqui, aumenta o déficit lá", ponderou, argumentando que a desigualdade beneficia os que ganham mais no setor público e não tem nada a ver com a luta dos funcionários a favor da paridade. "Temos de sair dessa armadilha institucional, jurídica, na qual nós estamos."
Ao citar diferentes avanços do governo na área social, o presidente criticou a oposição por usar como argumento contra as reformas constitucionais o fato de o governo as fazer em detrimento dos mais pobres e do povo. "A maior injustiça que a oposição comete para o Brasil e para o mundo é dizer que não estamos cuidando do social", disse. "Isso é mentira", repetiu duas vezes, acrescentando: "Se fosse verdade, eu não teria sido reeleito."
Segundo o presidente, o governo avançou muito na solução das questões sociais, embora falte muito a fazer ainda. Por isso
é natural que a sociedade cobre mais ações. "Mas não é natural que se use essa vontade justa de querer mais, como se fosse argumento para dizer que nada está sendo feito, porque aí é má-fé, é tentar enganar o povo", acusou, afirmando que a oposição tenta confundir a população, dizendo que o governo "está de braços cruzados, vendo as coisas piorar, quando não é verdade".
A defesa da ação social do governo acontece três dias depois da ampla divulgação do encontro do presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), com o presidente de honra do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, no qual acertaram a união de esforços para o fim da pobreza no Brasil. Ao reiterar o apoio à reforma tributária, Fernando Henrique fez críticas ao Congresso, afirmando que os parlamentares estão decidindo "talvez não com a pressa necessária".
Fernando Henrique reiterou a disposição de lutar pela continuidade do processo de transformações do Brasil, e de redução do déficit público, "apesar das incompreensões". Ele disse que, mesmo pregando a realização das reformas há seis anos
nunca deixou de olhar os dados sociais. "Todos, com exceção do emprego, sublinho, são positivos", argumentou. "Não existem muitos exemplos de países que tenham feito ajustes como nós fizemos, lutado contra a inflação com a energia que lutamos, que tenha se metido em reformas como nós nos metemos, que tivessem ao mesmo tempo olhado para o social."


