Brasília, 09 (AE) - O agravamento da crise na base aliada provocado com a demora na escolha do novo diretor da Polícia Federal acabou explicitando a fragilidade do comando do presidente Fernando Henrique Cardoso junto aos partidos que integram a aliança de sustentação. A avaliação feita hoje por alguns dos protagonistas da crise é de que o episódio acabou enfraquecendo todos que participaram direta ou indiretamente na disputa pelo poder, a começar pelo próprio Fernando Henrique, que depois de mais de 90 dias adiando uma decisão, acabou sendo pressionado a nomear o delegado aposentado João Batista Campelo para a direção da PF, no final da noite de terça-feira. "Esse assunto chegou onde chegou porque foi mal conduzido", disse o líder do PMDB, deputado Geddel Vieira Lima (BA).
O PSDB, além de não emplacar o delegado Marcelo Itajiba, ligado ao ministro José Serra, teve que aceitar calado a permanência do PMDB na aliança. Setores mais radicais do PSDB, defendiam uma posição mais firme do presidente, que incluiria a demissão do ministro Renan Calheiros. "Temos que agir para que o governo tenha eficiência e um sólido apoio no Congresso", disse o ministro das Comunicações e articulador político do governo, Pimenta da Veiga, minimizando o tom das declarações do dia anterior. "Eu não quero incluir ou excluir ninguém, mas colocar regras claras entre os aliados", insistiu Pimenta. "Acho que todo mundo precisa compreender que regras precisam existir para preservar a autoridade do presidente, que é intocável."
A postura do presidente de se reconciliar com o PMDB foi defendida por assessores do Planalto. Segundo um interlocutor próximo de Fernando Henrique, o presidente não poderia abrir mão do apoio do PMDB até mesmo pela governabilidade do País. "Isso não é uma opereta", comentou. "Governar é muito mais complicado do que se imagina". O líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio (PSDB-AM), também foi na mesma linha. "O presidente demonstrou um cuidado natural com um aliado importante", disse Virgílio. Em relação à demora para escolher o novo titular da PF a defesa no Planalto foi enfática. "O presidente tem o seu estilo e não é agora que ele vai mudar", comentou um assessor do governo.
Hoje, a ordem na base aliada era fingir que a tempestade passou. As principais lideranças governistas tentavam abafar o episódio, minimizando o estrago provocado no dia anterior. "Foi um episódio desagradável, mas o presidente agiu rápido e o assunto está superado", declarou o líder do governo na Câmara, deputado Arnaldo Madeira (PSDB-SP). "Essa é uma página virada do meu folhetim", disse Geddel, acrescentando que já havia falado ao telefone com o novo diretor da PF, João Batista Campelo.
O PMDB posicionava-se como vitorioso na disputa. Na noite da terça-feira, depois da conversa de Renan com Fernando Henrique, a cúpula peemedebista foi "comemorar" no restaurante Piantela. Hoje, o ministro da Justiça elogiou Campelo e já atribuía a indicação ao senador Jáder Barbalho, presidente do PMDB. "Foi uma escolha excelente", comentava Renan com interlocutores próximos.
"Se o ministro Renan estivesse desgastado, não ficaria no governo", argumentou Geddel. "Aliás, o PMDB está satisfeito com o governo; caso contrário sairíamos da base aliada", completou, rebatendo as declarações do governador Mário Covas, em São Paulo.
O ministro da Justiça, Renan Calheiros, não conseguiu emplacar o delegado Wantuir Jacini, sua opção inicial.

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