Brasília, 26 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso entendeu que a presença hoje de dezenas de milhares de manifestantes gritando palavras de ordem contra o governo, na Esplanada das Ministérios, é um recado de que algo vai mal e algumas metas precisam ser revistas. "Está registrado e já anotamos", comentou o presidente com um grupo de ministros, em reunião no Planalto, acrescentando, em seguida, que agora "é olhar para a frente e ver o que mais ainda pode ser feito".
"Vamos continuar", resumiu o presidente, que atribuiu parte do descontentamento à crise econômico-financeira enfrentada pelo País, que levou à desvalorização do real e ao aumento de tarifas públicas. Mas, se reconheceu a insatisfação dos participantes do ato, o presidente afirmou que o número de manifestantes ficou muito aquém do prometido pela oposição.
Na avaliação do ministro-chefe da Secretaria Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, o número ficou abaixo do esperado, mesmo com a atitude da oposição de inserir chamadas para o ato, "dois meses antes", na TV.
"Isso demonstra que, além de estar sem rumo, a oposição está sem eco na sociedade", disse, considerando que o ato foi conduzido pelos militantes dos partidos políticos e movimentos sindicais.
Mesmo tendo começado o dia preocupado com a repercussão e as consequências da Marcha dos Cem Mil, Fernando Henrique tranquilizou-se depois, quando se reuniu com o grupo de ministros do Planalto, até mesmo o general Alberto Cardoso, do Ministério da Casa Militar, que estava na coordenação do acompanhamento da passeata. Às 10h40, quando participou da reunião de avaliação política do governo, o presidente recebia sinais de que a manifestação transcorreria sem desordem.
O presidente, que pensou em se pronunciar sobre a manifestação, abandonou a idéia, ainda na manhã de hoje.
Fernando Henrique, depois de ler os jornais e acessar as agências de notícia no Palácio da Alvorada, chegou ao Planalto às 10h15. Reuniu-se com os ministros das Comunicações, Pimenta da Veiga, da Secretaria-Geral da Presidência da República, Aloysio Nunes Ferreira, e da Casa Civil, Pedro Parente, além dos assessores especiais Vilmar Farias e Moreira Franco.
Depois de um encontro rápido de 20 minutos com o presidente, no fim da manhã, o ministro do Meio Ambiente, José Sarney Filho, garantiu que o encontrou "tranquilo" e que os dois comentaram sobre a diferença dos números apresentados por rádios e pela Polícia Militar. "Uns falam 40 mil, outros 60 mil
mas o que é unânime que veio menos gente do que o esperado", disse Sarney Filho.
Para o ministro, o ato foi apenas "protesto político" que teve um fator positivo para a base governista: a união. "A manifestação tinha linguagem golpista, que foi se modificando, e isso, de certa forma, atiçou a base parlamentar, que hoje está muito unida e solidária em torno do presidente."
Durante horas, os manifestantes gritaram palavras de ordem e fizeram discursos contra o presidente. Mas, dentro do gabinete e com a determinação da PM de barrar a marcha nas proximidades do Congresso, Fernando Henrique não ouviu nada. No Planalto, a grande concentração era dos policiais que se perfilaram para proteger o prédio.
Até mesmo os policiais civis, que improvisaram uma pequena delegacia num ônibus parado no estacionamento do palácio
não tiveram o que fazer. Mas o marasmo do aparato de segurança contrastava com o agito interno no gabinete presidencial. Depois da rápida reunião de coordenação, Fernando Henrique recebeu, além de Sarney Filho, o ministro extraordinário de Política Fundiária, Raul Jungmann.
Antes de seguir de carro, às 13h45, para almoçar com a família no Alvorada, o presidente recebeu vários parlamentares da bancada de Pernambuco, levados pelo líder do PFL na Câmara, Inocêncio Oliveira (PE). À tarde, a agenda continuou pesada, com audiências para o presidente nacional do PFL, senador Jorge Bornhausen (SC), com representantes do Partido Democrático Cristão das Américas, o presidente da Alcoa, Alan Belda, e o bispo mineiro Ivan Dutra de Morais.
O presidente do Congresso, senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA), foi cumprimentar Fernando Henrique pelo que chamou de "fracasso da manifestação".
No início da tarde, o grupo de ministros e assessores que integram o comando político do governo fez nova reunião no gabinete do ministro-chefe da Casa Militar, Alberto Cardoso, para avaliar o resultado da marcha. "Felizmente, correu tudo bem e o número é pequeno, não passa de 40 mil pessoas", argumentou um interlocutor. "Revela a mobilização dos aparelhos dos partidos, dos grupelhos." Além das informações dos assessores, Fernando Henrique acompanhou todos os detalhes da manifestação pela Broadcast da Agência Estado.
Mas os assessores insistiam em salientar a "normalidade" da agenda. "O presidente chegou cedo, tirou o paletó e analisou as questões de governo na pauta", comentou um interlocutor do Planalto. "A vida continua, mesmo com a manifestação."

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