FHC ataca protecionismo em discurso na abertura da Cimeira
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domingo, 27 de junho de 1999
Por Isabel Braga 
Rio, 28 (AE) - Na abertura da reunião de Cúpula União Européia, América Latina e Caribe, o presidente Fernando Henrique Cardoso cobrou reciprocidade dos países desenvolvidos para os esforços de abertura e modernização realizados pelos países em desenvolvimento. "As mesmas nações que se beneficiam da liberalização dos fluxos comerciais e financeiros não podem ignorar que o protecionismo aberto ou disfarçado, a discriminação, o unilateralismo, a voracidade especulativa dos mercados contribuem para debilitar as relações econômicas, em detrimento de todos", afirmou.
Na presença de 48 chefes de Estado, Fernando Henrique voltou a cobrar um aprofundamento da discussão sobre a arquitetura financeira internacional "para garantir que os fluxos de capital sejam instrumento de progresso e não foco gerador de instabilidade ou simples mecanismo de concentração de renda, como até hoje". Segundo o presidente, "a busca desse objetivo requer um comprometimento sério com o sistema multilateral de comércio, cuja agenda deve refletir de maneira equilibrada os interesses e aspirações de todos os seus membros, grandes ou pequenos, ricos ou pobres".
O presidente brasileiro argumentou que a globalização é um processo irreversível, tanto no plano comercial quanto no financeiro, mas que seus efeitos positivos ou negativos dependem das ações e decisões dos governantes mundiais. "A globalização deve valer para todos; não pode ser dádiva para os ricos e privação para os pobres", disse. "Parece estar hoje ao nosso alcance, como nunca antes, um mundo no qual todas as energias se possam dirigir para aumentar o bem-estar e promover o desenvolvimento integral da pessoa humana."
Fernando Henrique enfatizou que a União Européia participa dessa reunião no Rio de Janeiro "fortalecida" pela adoção de uma moeda única e construção de uma política externa e de segurança comum aos 15 países. "Esses avanços confirmam a União Européia como parceiro absolutamente indispensável, capaz de contribuir para um maior equilíbrio das relações internacionais", disse. Para o presidente, a integração internacional deve estar baseada em conceitos pautados pela "inclusão dos que ainda são pobres, miseráveis e alienados da cidadania".
Ao afirmar que a América Latina tem plena condição de participar da redefinição do cenário econômico e financeiro mundial, o presidente destacou a vocação "democrática e pacífica" da região.
Salientou a coexistência de culturas, etnias e religiões diferentes e disse que a América Latina é, proporcionalmente a região que menos gasta em armamentos e a primeira a constituir-se como zona livre de armas nucleares. "No terreno econômico, há muito deixamos para trás a paralisia da "década perdida", afirmou.
Fernando Henrique enfatizou que os anos 90 se transformaram em uma década de vitórias para a região: "vitórias da democracia, vitórias da estabilidade econômica, vitória na luta contra as turbulências financeiras, contra inflação, contra o atraso, contra estruturas arcaicas que impedem a justiça e o progresso social". De acordo com o presidente, falta ainda vencer "a batalha do desemprego", principal problema enfrentado pelo seu governo e outros governos latino-americanos. "Nela estamos empenhados."
O presidente cobrou ainda que se avance na reforma das Nações Unidas, e no fortalecimento do Conselho de Segurança. O Brasil defende a ampliação de vagas permanentes no Conselho de Segurança da ONU, e entende que o Brasil, pelo seu tamanho e influência na América Latina, tem direito a uma cadeira. "O Conselho de Segurança deve constituir o centro do sistema de segurança internacional, imprescindível para dar legitimidade às ações da comunidade internacional em favor da paz", acrescentou
citando o exemplo recente da atuação da ONU na solução do conflito de paz na região do Kosovo.
Fernando Henrique abriu a reunião fazendo um breve relato da participação crescente dos europeus na América Latina e classificou a cúpula do Rio de "reencontro histórico". "Temos diante de nós uma tarefa ambiciosa: a de inaugurar uma nova era nas relações entre América Latina e Caribe e União Européia, recuperando e redefinindo nossa história comum." O presidente encerrou seu discurso, explicando que essa tarefa implica "na construção de uma ordem internacional legítima, "um esforço para prevenir os efeitos danosos dos vendavais especulativos sobre as finanças nacionais".


