Bonn, 16 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso atacou hoje, de uma só vez, o documento divulgado ontem (15) pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e as ocupações de terra e manifestações feitas no Brasil pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (Contag). Fernando Henrique chegou a classificar a invasão de terras promovida pela Contag em diferentes estados brasileiros como "simulação de força política ou paramilitar, sem ser militar", beneficiando apenas os líderes dos movimentos - que conseguem espaço na mídia - e não os trabalhadores sem-terra.
Em entrevista coletiva concedida na residência de hóspedes de Petersberg a jornalistas brasileiros e alemães antes do embarque para a viagem de três dias a Portugal, o presidente reagiu de forma dura e irônica ao documento divulgado pela CNBB, que diz que o governo perdeu a credibilidade e o real é uma ficção monetária. "Eu não opino sobre dogmas da Igreja e acho melhor e mais oportuno que a Igreja não opine dessa maneira sobre assuntos da economia", disse.
Afirmou não ter conhecimento do teor do documento da CNBB e disse não acreditar que as opiniões contidas no relatório sejam da Igreja Católica. "São geralmente de assessores e muitos, infelizmente, não têm capacitação técnica", afirmou. De forma bastante irônica, o presidente sugeriu que esses assessores "estudem um pouco mais os dados" apresentados pelo governo e completou: "se tivessem uma formação econômica melhor
também ajudaria".
O que aparentemente irritou o presidente, foi a declaração relativa ao real. "Afirmar que o real é ficção, isso sim é que constitui ficção", disparou Fernando Henrique. "Afirmar que uma moeda nacional que conseguiu passar por turbulências e, evitando o governo que houvesse inflação, isso sim é ficção", disse, acrescentando, "não creio que a Igreja, como tal, endosse essas opiniões". Reforma agrária - Diante dos jornalistas alemães, Fernando Henrique traçou um quadro das diferentes ações do governo pela reforma agrária, citando a criação do Banco da Terra - criticado pelos sem-terra - e a fusão entre o programas de financiamento para assentados e pequenos agricultores. O presidente ressaltou que o principal objetivo do governo é evitar que os assentamentos se transformem em clientela rural do Estado e explicou que a compra de terrenos pelo Banco da Terra acontecerá concomitantemente à desapropriação de terras improdutivas.
"Quem de boa fé pode ser contra isso, se é um passo a mais para fortalecer a reforma?", questionou. "Alguns movimentos ligados à terra são contra porque, por princípio querem desapropriar, ocupar, criar caso". Para Fernando Henrique, quando os movimentos deixam de atender às população e passam a contestar o sistema político e social vigente, deixam de ser um movimento de reforma agrária. "Passa a ser um sonho, talvez até generoso, para uma nova ordem sócio-econômica, passa a ser um movimento político que usa a boa fé dos que necessitam de terra para fazer agitação política". Fernando Henrique reiterou o "compromisso indeclinável" de seu governo com a reforma agrária e garantiu que o governo "não ficará de braços cruzados" diante das ocupações de terras. "Quem ganha com isso: o sem-terra, o pobre do campo?", indagou, respondendo não e acrescentando em seguida: "ganham as lideranças que vão para os jornais, vão para o mundo todo e no mundo todo dá a impressão de que o governo é contra a reforma agrária, quando não é".
Também irônico, o presidente acusou os líderes destes movimentos de "fazer estrelismo". "É bom estar na mídia, mas isso não é fazer reforma agrária". Ao encerrar a coletiva, o presidente voltou a tocar nos dois temas, quando falava sobre suas expectativas para o próximo século. "Não adianta fazer relatório pessimista, dizer que a moeda não vale nada, que a reforma agrária é montagem do governo, porque não é verdade", disse. "O que adianta dizer é que não é suficiente, isso aqui é uma gota dágua porque é um oceano de problema, é verdade, mas precisamos trabalhar com uma espécie de utopia, com vontade para que se constitua uma sociedade mais igualitária".

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