Colônia, 15 (AE) - Ao falar hoje para um grupo de empresários alemães na sede da Confederação das Indústrias Alemãs, o presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou que a previsão do governo é de que os juros reais deste ano fiquem entre 10 a 12%. Durante quase uma hora, usando dados do memorando assinado recentemente com o Fundo Monetário Internacional (FMI), Fernando Henrique tentou mostrar que o Brasil está superando, mais depressa que o previsto, a crise financeira que provocou a desvalorização do real. E fez vários apelos para que os alemães continuem confiando e investindo no Brasil.
O presidente citou a previsão de inflação de 17% e disse que a Fipe já aponta para uma taxa inferior a 10%, acrescentou que a cotação do dólar em R$ 1,70, prevista só para dezembro, que já foi alcançada agora e disse esperar um crescimento "zero ou um resultado mais positivo" que a queda de 3,5% a 4% no Produto Interno Bruto, "desde que as condições continuem melhorando". O presidente também negou qualquer tipo de dolarização da economia brasileira e, brincando, acrescentou que isso só seria possível se ela incluísse dar a ele a presidência do Federal Reserve ( FED), banco central norte-americano.
PROBLEMA - O presidente afirmou para os empresários alemães que o problema brasileiro, neste momento, tem sido o de evitar um aumento muito brusco na cotação do real. "O Banco Central está sendo obrigado a sustentar o dólar, isso é fantástico, mas é verdade", argumentou, rindo o presidente. "Esse agora é o nosso problema: manter o ponto de equilíbrio", acrescentou.
Mais tarde, em entrevista aos jornalistas brasileiros, o presidente negou que o Banco Central esteja atuando para fixar o patamar para a cotação do dólar. "Quem fixa patamar é o mercado
a regra do câmbio flutuante é esta", explicou. "O BC só intervém para evitar o ziguezague, porque do ponto de vista de quem está na atividade econômica é melhor que haja previsão." Segundo Fernando Henrique, a recuperação do real "foi mais rápida" do que se previa e atuação do BC na compra de dólares tem por finalidade evitar a volatilidade de capitais.
O presidente disse que a cotação do real frente ao dólar está hoje variando entre R$ 1,5 e R$1,7, "chegando a uma acomodação normal", mas que se ficar abaixo de um destes valores, o governo não irá interferir. "Se ficar abaixo, ficou, não há problema."
PRIVATIZAÇÓES - Ao convidar os empresários alemães para participar das privatizações brasileiras - "que se espera que rendam este ano cerca de US$ 28 bilhões" -, Fernando Henrique comemorou a venda da Companhia de Gás de São Paulo (Comgás), citando empresas britânicas que ganharam o leilão. "Não é nada mal", disse o presidente, ao citar que ela foi privatizada com ágio de 119,32%.
O presidente lembrou que existem hoje no Brasil 1,2 mil empresas alemãs, entre elas grandes nomes como Volkswagen, Mannesman, Siemens, Dailmler-Benz, Basf, Bosch. Fernando Henrique convidou os pequenos e microempresários alemães a investir no Brasil. "Os investimentos alemães foram importantes para a recuperação econômica brasileira, principalmente depois dos últimos meses", disse Fernando Henrique, agradecendo a confiança dos alemães no nosso País.
Fernando Henrique citou os ex-presidente Fernando Collor e Itamar Franco como responsáveis pela abertura econômica brasileira. Ele disse que muitos produtores e empresários reclamaram da entrada de produtos importados, mas que a competição é fator fundamental para o desenvolvimento econômico brasileiro.
O presidente destacou que a crise econômica russa provocou a perda de US$ 20 bilhões das reservas brasileiras só em setembro do ano passado e que, de agosto de 1998 até agora o Brasil já perdeu US$ 40 bilhões em reservas e possui hoje US$ 44 bilhões. "Ajudem-nos a recuperarmos nossas reservas para que nossa economia volte a crescer", afirmou na palestra.
Ao falar sobre a atual situação brasileira, o presidente fez uma comparação entre os cenários econômicos traçados em fevereiro deste ano, depois da desvalorização do real, e o de abril. "Todos os cenários e as direções parecem indicar que nós estamos ultrapassando a mais delicada fase da crise", comentou, afirmando que o impacto no sistema bancário foi relativamente suave, graças ao programa de socorro aos bancos ( Proer) feito pelo governo em 1995. Fernando Henrique admitiu que sua popularidade caiu em razão das medidas adotadas, mas disse que "o importante é que o Brasil está mais forte depois da crise".
MORATàRIA - O presidente negou que o Brasil tenha pensado ou esteja pensando em recorrer a uma moratória de seus débitos em razão da crise ."A situação fiscal está sob controle e embora as Cassandras de sempre falem indocilmente sobre os riscos de uma moratória, elas estão erradas", disse o presidentes, acrescentando: "Vamos colocar isso claro: isso não haverá, nenhum tipo de moratória."
O presidente atribuiu à maturidade da sociedade brasileira o fato de a inflação estar sendo controlada e citou estudo da Central Única dos Trabalhadores (CUT) - mostrando que o trabalhador perderia com a reindexação salarial - e disse que a maior parte dos sindicalistas e economistas sérios no Brasil é contrária à reindexação, classificando-a de "sem sentido".

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