Xapuri, AC, 20 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso apelou hoje, em Xapuri (AC), à unidade política para que o Brasil continue avançando. Ele estava ao lado do governador Jorge Viana (PT) quando disse isso.
"Em certas circunstâncias, para que o povo avance, é preciso que uns dêem as mãos aos outros e que não nos percamos sempre em interesses egoístas", disse o presidente.
Fernando Henrique criticou as manifestações organizadas pela oposição contra o governo e classificou como "um exemplo da não-intolerância" o fato de participar de inaugurações ao lado de um governador e de senadores petistas.
Na quinta-feira (26), os cinco partidos de oposição e mais de 80 entidades da sociedade civil realizam em Brasília a Marcha dos 100 Mil, para protestar contra a política econômica do governo e pedindo a renúncia de Fernando Henrique. "Eu sei que é bom; vai lá, faz marcha, protesta contra o presidente", disse. "Não melhora um átomo a vida do povo", criticou. "Se, em vez disso, nós nos juntarmos para organizar o trabalho, fazer convênio, aumentar a conscientização, fazer que os governos funcionem em parceria, a coisa avança." O líder do governo no Congresso, deputado Arthur Virgílio Neto (AM), que acompanhou Fernando Henrique na viagem ao Acre, também criticou a marcha da oposição e afirmou que o PT de Viana "é o PT democrático, que constrói". "O outro PT vive nas nuvens", disse, fazendo referência direta ao presidente de honra do partido, Luiz Inácio Lula da Silva. Virgílio Neto afirmou que o governo Fernando Henrique está encarando a marcha "com tranquilidade", mas que o PSDB irá "desmascarar o ato", classificado por ele como "farsa golpista".
Ao chegar à reserva extrativista Seringal Cachoeira, o presidente visitou uma exposição de produtos feitos no Estado, posou para fotos com trabalhadores da reserva e viu como é realizada a defumação do látex extraído da borracha. Fez uma rápida visita à tia do ex-líder seringueiro Chico Mendes Célia Mendes, morto em 1988. Ela mora na reserva. No fim da visita, o presidente participou de debate informal com lideranças locais : seringueiros, índios e representantes de organizações não-governamentais (ONGs).
Fernando Henrique enfatizou que o governo promoveu avanços em várias áreas e afirmou que o desmatamento no Amazonas é pequeno. "Houve desmatamento e isso é condenável, é terrível", disse, "Mas um Estado como o Amazonas tem muito pouco desmatamento, é muito preservado, não chega a 3% de desmatamento", disse. Mas foi o discurso do cacique da nação Jaminauá, Ubiraci Brasil, que provocou críticas maiores do presidente.
O cacique cobrou a demarcação das terras indígenas e disse serem os índios os verdadeiros guardiões da floresta, mas que são tratados pelos governo como animais. "Não deixem acontecer como há 500 anos atrás, quando nos deram de presente a extinção de nossa nação", disse Brasil, afirmando ainda que os antepassados mortos servem hoje de "adubo" para a floresta. "Só queremos conviver em paz com a floresta, queremos nossas terras." Fernando Henrique afirmou que a demarcação das terras indígenas está se completando, que nunca outro governo fez tanto para os índios quanto o dele e reagiu : "É bom que se diga as coisas, é bom que se reclame, mas é bom que se diga as coisas como elas são." "Não é tudo uma maravilha, mas as coisas estão melhorando, existe franca disposição", argumentou Fernando Henrique.
"Ocorre que o Brasil é um País muito grande, todo mundo tem razão, pede, mas não há recursos", ponderou.
O presidente do Conselho Nacional de Seringueiros, José Juarez Leitão dos Santos, entregou um documento a Fernando Henrique, cobrou a criação das reservas extrativistas e disse que o projeto de desenvolvimento da Amazônia nunca contemplou os povos da floresta.
Fernando Henrique também defendeu o modo de governar, ouvindo diferentes opiniões e evitando impor a vontade. "O pior mal do desenvolvimento de uma sociedade na democracia é quando a gente pensa que só um lado tem razão", disse. "Se eu pensasse: Só eu tenho razão, eu iria impor." Segundo o presidente, muita gente pede que ele imponha atos porque não sabe o que é uma relação democrática.
"Cada um que pensa que só ele tem razão e não ouve o outro, mesmo que ele possa até ter razão, acaba fazendo o mal porque transforma um movimento bom em fundamentalista, acredita só nele e tudo mais pertence ao demônio", explicou. "Não é assim; nós temos de entender humildemente as dificuldades, os pontos de vista de cada um, para que possamos, aí sim, solidariamente, avançar."
Fernando Henrique voltou a defender a descentralização das ações de reforma agrária e afirmou que só dessa forma será possível mudar a estrutura agrária do Brasil. "Há uma resistência equivocada de alguns setores favoráveis à reforma agrária quanto à descentralização", disse. "É equivocada porque, de Brasília, é impossível resolver essas questões: tem de haver parcerias crescentes com os governos estaduais e municipais." Segundo o presidente, "não há salvação" fora da descentralização da reforma agrária. "É preciso combater o preconceito ideológico, que acha que o Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária) é quem vai fazer tudo."

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