Londres, 19 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso anunciou hoje, depois de ser recebido pelo primeiro-ministro inglês, Tony Blair, que nos três primeiros meses deste ano o País já alcançou um superávit nas contas do governo central de R$ 7 bilhões. "Aproveito para dizer, em primeira mão, que o superávit deste trimestre - pelas informações que me deram ontem do Brasil - deve ter alcançado 7 bilhões de reais", comentou o presidente, voltando a garantir que o superávit primário deste ano será assegurado.
Fernando Henrique fez questão de enfatizar que este resultado primário (receita menos despesas, exceto juros) é maior do que o compromisso de desempenho previsto no memorando assinado pelo governo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), para este primeiro trimestre, que era de R$ 6 bilhões.
A notícia do superávit foi dada quando o presidente respondia a pergunta dos jornalistas sobre editoral publicado hoje pelo jornal Financial Times exaltando a rápida recuperação econômica brasileira após a crise, mas colocando em dúvidas sobre a real intenção do governo brasileiro em levar adiante o ajuste fiscal.
"Esse é um sinal muito positivo e a resposta mais clara do que só minhas palavras, de que estou comprometido (com o ajuste)", afirmou o presidente, acrescentando: "Estamos comprometidos e estamos realizando porque o Congresso aprovou as medidas".
Fernando Henrique explicou ainda que o superávit fiscal de R$ 7 bilhões não inclui estatais e estados, "mas inclui a Previdência e o Tesouro".
Crédito - Antes do encontro com Blair, em reunião com 11 importantes empresários ingleses, Fernando Henrique afirmou que dados do Banco Central já registram a recuperação de 95% das linhas de crédito externas para o Brasil em relação à 28 de fevereiro deste ano.
Segundo o embaixador brasileiro em Londres, Rubens Barbosa, que participou do encontro ao qual a imprensa não teve acesso, Fernando Henrique citou a recuperação dos créditos ao responder à pergunta feita por um dos empresários. "O presidente lembrou que já está havendo uma reação positiva em resposta à gestão feita pelo ministro (da Fazenda), Pedro Malan e o presidente do Banco Central, Armínio Fraga durante a visita à Europa", contou Barbosa.
De acordo com o embaixador, o presidente também disse que a expectativa é de que, nesta próxima semana, a recuperação das linhas de crédito ultrapasse os 100% em relação a 28 de fevereiro.
Durante o encontro de uma hora e 30 minutos, realizado na sede da Confederação das Indústrias Britânicas (CBI), os empresários ingleses manifestaram também a preocupação com o ajuste fiscal brasileiro.
Fernando Henrique afirmou ter dito claramente aos 11 empresários presentes à reunião, que a realização do ajuste fiscal é um compromisso não só do governo, mas pessoal. "Eu expliquei a eles que é determinação minha, pessoal, direta, de fazermos o ajuste fiscal, até porque o combate à inflação é algo fundamental para o Brasil, mas é para mim também, porque toda minha vida política, desde que fui ministro da Fazenda, foi de dar estabilidade ao País", contou depois do encontro com Blair. "Eu não iria agora perder esta vantagem que o Brasil conseguiu, eu não iria contribuir para a sua perda, eu vou fazer o ajuste fiscal."
Fernando Henrique também destacou aos empresários a diferença que vê entre o programa de ajuste fiscal é a reforma tributária. "Eu expliquei que temos medidas importantes a tomar
na reforma tributária e na continuidade da reforma previdenciária, mas que são questões de mais largo prazo e não têm a ver diretamente com a conjuntura e nem com o ajuste fiscal
para que não confundam as coisas."
O presidente ressaltou que o Congresso brasileiro já deu todos os instrumentos necessários para a realização desse ajuste de dois ou três anos. "Nós estamos com horizonte e a reforma tributária é para aumentar o nosso horizonte e vai ser feita", acrescentou.
Participaram do encontro com o presidente o chairman da British Airways, Lord Marshall of Knightsbridge; o chairman da British American Tobacco, M.F. Broughton; o chairman da Diageo, Tony Greener; o chairman da Shell Transport e Trading, Mark Moody-Stuart, entre outros.
O presidente abriu o encontro fazendo uma exposição de meia hora, na qual mostrou dados positivos da recuperação econômica brasileira após a desvalorização do real. Os mesmos dados apresentados aos empresários alemães, como a perspectiva de juros reais este ano entre 10 e 12% e inflação menor de 10%.
Fernando Henrique também queixou-se do equívoco de analistas ao comparar a situação brasileira à dos países asiáticos, lembrando que isso afetou diretamente a economia do País e levou a perda de US$ 20 bilhões das reservas em setembro do ano passado. O presidente voltou a defender a criação de mecanismos de controle sobre o fluxo de capitais na economia mundial.
Durante a hora restante, os empresários ingleses fizeram perguntas sobre o futuro do Mercosul e específicas, como a do chairman da British Gas, David Varney, cuja empresa foi uma das vencedoras do leilão da Comgás, sobre a política de gás a ser adotada.

mockup