Brasília, 08 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso fez um alerta hoje à noite, em reunião com os líderes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra: usará até a Lei de Segurança Nacional se forem confirmadas as denúncias de infiltração de integrantes de movimentos guerrilheiros, como o Sendero Luminoso, em grupos de sem-terra brasileiros. De acordo com o ministro de Política Fundiária, Raul Jungmann, o presidente frisou não saber de nenhuma denúncia de infiltração no MST. "Não estou fazendo insinuações, mas serei absolutamente intransigente para reprimir caso se confirmem", disse FHC, em audiência no Palácio do Palanalto.
"O presidente fez um apelo, um alerta e um convite aos movimentos sociais para que denunciem qualquer tentativa de infiltração desses grupos nos movimentos sociais no Brasil", afirmou Jungmann. Desde abril de 1997 o presidente Fernando Henrique não recebia o MST.O presidente anunciou que será indicado um integrante do MST para o conselho curador do Banco da Terra.
O MST vinha pedindo nova audiência há cerca de três meses. Na época, o presidente avisou que receberia o MST somente depois de a pauta ser discutida com Jungmann. Esse encontro aconteceu ontem. Os líderes do MST resistiam à reunião prévia com o ministro alegando estarem esgotadas as negociações com ele e queriam falar com quem tinha autoridade para resolver suas reivindicações. Do encontro hoje participaram Jungmann, o ministro-chefe da Casa Militar, general Alberto Cardoso e o secretário nacional de Direitos Humanos, José Gregori.
Verbas - Jungmann anunciou que o presidente autorizou a recomposição do orçamento do ministério, que teve corte de R$ 550 milhões no início do ano em razão do ajuste fiscal. Segundo o ministro, a recomposição vai ultrapassar o corte: durante o ano, serão liberados R$ 460 milhões para a nova linha de crédito
resultante da fusão dos programas Especial de Crédito para Reforma Agrária (Procera) e o Nacional de Agricultura Familiar (Pronaf), e outros R$ 220 milhões para o orçamento do Banco da Terra.
"Com isso conseguiremos garantir a meta de assentamento de 85 mil famílias este ano", disse. Até agora, segundo ele, o governo conseguiu assentar 13 mil - a meta é fechar o mês de julho com 25 mil famílias. O ministro argumenta que o fraco desempenho até agora não deve ser motivo de preocupação. "Historicamente o primeiro semestre sempre tem um desempenho fraco porque é período de avaliação, de desapropriação das terras, para se colher os frutos no segundo semestre."
São Tomé - O presidente considerou proveitoso o encontro de hoje, num clima de "respeito e tranquilidade", conforme relato do ministro. Um dos líderes do MST, Gilmar Mauro, confirmou o clima amigável, mas disse que "de boas intenções o inferno está cheio". "Nós estamos esperançosos, só que estamos calejados com esse tipo de promessa: vamos ser como São Tomé, ver para crer", disse.
Foi marcada uma nova reunião para amanhã (09) pela manhã com Jungmann e os líderes dos sem-terra. "Achamos que essa disposição em conversar é uma mudança na posição do governo", disse Mauro. Na reunião deverá ser anunciada a data em que o ministro irá conversar com os sem-terra do Paraná, onde o clima é tenso.
No Paraná, de acordo com Jungmann, será anunciada a liberação de R$ 25 milhões para assentamentos no Estado. "Esse montante será somado aos R$ 40 milhões que serão liberados durante o ano", disse. Segundo o ministro, nos primeiros quatro anos de governo Fernando Henrique, foram liberados R$ 394 milhões para assentamentos no Paraná.

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