FHC agradece a Clinton 'empenho' nos momentos difíceis
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domingo, 09 de maio de 1999
Por Paulo Sotero 
Washington, 10 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso agradeceu hoje ao presidente dos Estados Unidos, Bill Clinton, pelo "empenho do governo americano nos momentos mais difíceis" da recente crise financeira brasileira e atualizou o líder americano sobre a evolução da economia brasileira.
O encontro dois dois presidentes, no Salão Oval da Casa Branca, durou cerca de uma hora, 20 minutos dos quais sem a presença de assessores.
De acordo com o relato de Fernando Henrique, a situação econômica do Brasil foi o principal assunto da conversa, da qual participaram os secretários do Tesouro, Robert Rubin, e de Estado dos EUA, Madeleine Albright, o ministros das Relações Exteriores do Brasil, Luiz Felipe Lampreia, e o embaixador Paulo Tarso Flecha de Lima, que deixará Washington este mês. "Falamos
em particular, do que está acontecendo no Brasil depois da crise econômica e os esforços que estamos fazendo para superar as dificuldades, que já estão sendo resolvidas", informou o presidente.
Sem fornecer detalhes, Fernando Henrique disse que os dois líderes discutiram também a questão de Kosovo. Antes do encontro, Lampreia disse que o presidente expressaria "a inconformidade" do Brasil com a exclusão do Conselho de Segurança das Nações Unidas do processo de decisão da Aliança Atlântica que levou aos bombardeios no Kosovo. O encontro com Clinton foi o último compromisso do presidente brasileiro na capital americana, depois de um dia cheio, no qual fez duas apresentações a empresários, visitou o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e teve um encontro separado com Rubin. Da Casa Branca, Fernando Henrique foi para a Base áerea de Andrews, de onde voou no Boeing presidencial para Nova York, onde teria um jantar com banqueiros.
Uma parte do diálogo entre os dois presidentes foi sobre negociações comerciais. Mas, a julgar pelo relato de Fernando Henrique, não houve progressos significativos em relação à demanda brasileira de um acordo para encerrar ações comerciais contra produtos siderúrgicos brasileiros nos EUA. "Mostrei a ele a nossa preocupação com essa questão e senti que há uma disposição de analisar", disse o presidente.
"A nossa participação no mercado de aço americano é muito pequena ... e os ministros dos dois países vão analisar o assunto." Mas, refletindo provavelmente a explicação que ouviu de Clinton sobre a dificuldade política que a administração americana enfrenta para negociar com o Brasil um acordo suspensivo de ações protecionistas, semelhante ao que os EUA negociaram recentemente com a Rússia, Fernando Henrique afirmou que "o Congresso americano (que quer a proteção do mercado siderúgico) também está muito ativo" nessa questão.
O presidente brasileiro disse que informou Bill Clinton sobre a cúpula de líderes da América Latina e da Europa que presidirá em junho, no Rio. "O presidente Clinton coincide comigo que é importante que haja entendimento entre a Europa e a América Latina e, especicamente o Mercosul (Mercado Comum do Cone Sul), pois isso facilitará o comércio internacional."
Retomando um tema das palestras a empresários, nas quais reafirmou o compromisso do governo com as reformas, Fernando Henrique disse que reafirmou o interesse do Brasil no Mercosul e na continuação do processo de criação da área de Livre Comércio das Américas (Alca). "A integração na economia mundial é crucial para os nossos projetos." Em relação à Alca, no entanto
o presidente brasileiro reafirmou, numa das palestras, a disposição do governo de insistir no princípio estabelecido entre os 34 países participantes, de acordo com o qual nenhuma medida de liberalização do acesso a mercado negociada no quadro da Alca entrará em vigor antes da conclusão das negociações do conjunto do acordo de criação da área hemisférica de livre comércio, prevista para 2005. Segundo Lampreia, o Brasil e os EUA diferem na interpretação de alguns dos 17 pontos que Washington apresntou numa reunião recente de vice-ministros sob a rubrica "facilitação de negócios". O governo americano quer que as medidas entrem em vigor imediatamente, se forem aprovadas numa reunião ministerial da Alca, marcada para Toronto, no Canadá, em novembro. O chanceler disse que o governo brasileiro considera algumas das propostas mecanismos de abertura de mercado e pretende resistir à demanda americana.
"Apesar de existirem esses pontos de fricção, o comércio avança bastante", disse Fernando Henrique, ao sair da conversa com Bill Clinton. "O Brasil está entre os países que mais importam dos EUA", informou ele.
"Importamos 25% mais dos EUA do que a China; o nosso comércio bilateral com os EUA é equivalente ao comércio entre os EUA e a França, de tal maneira que, hoje, as nossas relações econômicas têm significado mundial."
A situação financeira internacional também foi tema do encontro. "Conversei com Clinton sobre minhas antigas preocupações quanto à necessidade de termos certos mecanismos que permitam atuar rapidamente para resolver crises econômicas evetuais", disse ele. "O exemplo do Brasil é eloquente e mostra que isso pode ser feito." Fernando Henrique disse que considera a posição do Departamento do Tesouro norte-americano em relação a esse tema "mais aberta do que a de muitos países europeus, no sentido de que existam mecanismos de rápida prescrição de ajuda a países que, estando dentro da linha correta, tendo feito suas reformas, venham a ser afetados por crises internacionais". Nos discursos que fez para empresários
o presidente procurou valorizar o esforço fiscal brasileiro. "Imaginem se os EUA estivessem à beira de uma recessão e ainda assim o Congresso americano precisasse aprovar um aumento de impostos de cerca de US$ 250 bilhões", disse. "É dessa magnitude o esforço que estamos fazendo no Brasil."
Mas, segundo a avlaiação do presidente brasileiro, a conversa com Bill Clinton "foi muito mais política do que econômica e teve o sentido de ver as condições na América do Sul da manutenção da democracia e da paz".


