FHC agarra-se ao real e coloca autoridades na berlinda
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 12 de abril de 1999
por Angela Bittencourt e Equipe d a AE-Broadcast 
São Paulo, 13 (AE) - Com o índice de popularidade descendo ladeira abaixo, o presidente da República agarrou-se ao Plano Real em seu pronunciamento à Nação ontem à noite. Num rápido balanço dos últimos três meses - aliás os três primeiros do segundo mandato - FHC disse o que gostariam de ouvir os economistas mais realistas ou conservadores: "Não pretendo dizer que está tudo bem, tudo resolvido". Mas não deixou de apelar ao discurso habitual, colocando as autoridades monetárias na berlinda ou na desconfortável posição de quem deve apresentar uma versão (política) positiva de indicadores econômico-financeiros fundamentalmente técnicos.
Em cadeia de rádio e televisão, o presidente FHC lembrou que os juros já estão caindo e vão cair ainda mais; que o dólar também está caindo para níveis mais realistas; que os investimentos estão começando a voltar; e que a inflação continua caindo e pode fechar o ano abaixo de 10%, como no início do Real, cuja "âncora é o povo". Hoje, o presidente embarca para o exterior, onde permanece por quase dez dias. Não há dúvida de que FHC promoverá o País lá fora e espera-se repercussão de suas visitas à Alemanha, Portugal e Inglaterra, até porque um dos pontos altos desse giro são as entrevistas que concederá a destacados veículos da imprensa internacional. Enquanto isto, o clima é de expectativa crescente no mercado financeiro, que tentou dar a volta por cima nesta segunda-feira, minimizando o potencial desdobramento do inquérito e da sindicância abertos, respectivamente, pelo Ministério da Justiça e Banco Central para apurar as denúncias que comprometem o BC numa suposta rede de venda de informações privilegiadas que teria como um dos favorecidos o Banco Marka. O mercado, que espera a instalação da CPI do Sistema Financeiro para amanhã, perdeu o pé nas primeiras horas de negócios desta segunda-feira. E, embora tenha conseguido promover uma guinada dos preços dos principais ativos financeiros no período da tarde, não teve sorte semelhante ao pilotar seu próprio humor.
Cacciola - O dia foi encerrado com informações desencontradas sobre o paradeiro de Salvatore Cacciola, presidente do Marka, mas com a Polícia Federal e o BC procurando antecipar-se ao Congresso e apressando os trabalhos de investigação das denúncias divulgadas pela revista Veja no final de semana e que apontam para um alto funcionário que recebia propina em troca de informações a pelo menos dois bancos, segundo a publicação. Embora tenha fechado em queda, o mercado futuro de juros era considerado um termômetro duvidoso de expectativas ontem no final do dia, porque os bancos já não mostram tanta convicção de que o Comitê de Política Monetária (Copom) cortará o juro primário dos atuais 39,5% para 32% ou 35% ao ano.
As bolsas de valores - patinando no vermelho durante todo o dia - foram içadas no final da tarde por Nova York, que bateu novo recorde, mas o giro financeiro da Bovespa e m dólar foi o menor em uma semana; o câmbio superou as previsões e desabou a R$ 1,695 no final da tarde, rompendo o suporte de R$ 1 70 e descendo, portanto, ao seu menor preço desde a liberalização do mercado em meados de janeiro. A queda estaria sendo forçada pelo ingresso mais pesado de capital estrangeiro de curto prazo e considerado especulativo. Se o volume de capital externo for efetivamente relevante - como indicam os operadores e a trajetória do dólar - as reservas internacionais do País devem começar a confirmar valores crescentes a partir dos dados que serão divulgados hoje. A posição relativa à sexta-feira, divulgada ontem, saltou de US$ 38,909 bilhões para US$ 43,828 bilhões, incorporando o ingresso da segunda parcela do pacote de ajuda externa coordenado pelo BIS e equivalente a US$ 4,9 bilhões. Com a segunda tranche inteira dentro de casa, as reservas líquidas - descontad o o empréstimo do FMI e bancos centrais - são de US$ 24,728 bilhões, insuficientes, portanto, para cobrir o déficit em transações correntes em doze meses estimado ainda em torno de US$ 35 billhões.
Déficit em transações correntes da ordem de US$ 35 bilhões em doze meses corresponde ao fechamento do ano, mas o mercado não conta com melhora significativa no balanço final das contas externas no primeiro trimestre, considerando o fato de que as exportações não estão reagindo dentro do esperado. Apesar das palavras encorajadoras do presidente FHC em seu pronunciamento à Nação ontem à noite - aparentemente convencido de que as exportações crescentes vão gerar 270 mil empregos - o governo ainda não divulgou os dados da balança de março e pretende anunciá-los recorrendo a critérios diferentes de contabilização. Os analistas mais técnicos observam a queda acentuada do dólar com o pé atrás, porque entendem que a moeda declina - viabilizando a valorização do real - como resultado de um processo de oferta de divisas que pode ser perverso pela sua má qualidade. A queda acelera da do dólar - citada ontem pelo presidente como uma das indicações de que o País sai do atoleiro em que teria se metido como resultado de um grave ataque especulativo e não como barbeiragem do Banco Central em janeiro - desagrada analistas, que não descartam a possibilidade de a desvalorização nominal sofrer rápido achatamento, reduzindo a uma variação ínfima a desvalorização do real acima de índices médios de inflação.
Conforme apurou o editor Mario Rocha, negócios chegaram a ser realizados a R$ 1,685, sinalizando nova rodada de baixa para esta terça. Ontem, a oscilação entre as cotações mínima e máxima atingiu 1,18% ou o maior nível em uma semana. O dólar está acumulando alta de 40,23% desde meados de janeiro, quando foi liberalizado o mercado de câmbio - variação substantivamente menor que a observada no final da primeira semana de março, de quase 64%.


