Brasília, 21 (AE) - O presidente Fernando Henrique Cardoso disse hoje, durante a cerimônia de entrega do Prêmio Qualidade do Governo Federal, que hoje "é extremamente arriscado fazer parte de qualquer administração pública, dado o nível, às vezes, de precipitação no julgamento dos atos". Segundo o presidente, "rapidamente, as pessoas passam de levemente suspeitas a condenadas, na hora; e, às vezes, a suspeita é vã".
Depois da cerimônia, perguntado se as declarações poderiam ser interpretadas como defesa ao ministro da Defesa, Élcio álvares, e à ex-assessora Solange Antunes - que teve a quebra dos sigilos requisitada pela Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Narcotráfico na Câmara -, o presidente reagiu com irritação: "Eu não disse nada e nem pensei em ninguém; não inventem o que eu não disse," afirmou Fernando Henrique, alegando que as afirmações nada tinham a ver com casos concretos. "Se aparecer qualquer afirmação minha, desminto de antemão porque eu nem pensei nesse assunto", ameaçou. Fernando Henrique disse que se referia, de forma genérica, a todo o funcionalismo público.
No discurso, o presidente elogiou os servidores, dizendo que considera a burocracia brasileira um das melhores do mundo em desenvolvimento. Esquivou-se, porém, de tocar num ponto frágil na relação com os servidores, a falta de aumento salarial. "Não quero falar de outras questões porque o pessoal da área econômica não está aqui; não quero falar de questões salariais."
O presidente pediu um maior empenho do funcionalismo, justamente para enfrentar o que ele chamou de cobranças. "É difícil o exercício da vida pública, não apenas por parte dos que são de carreira, como por parte daqueles que se juntam aos de carreira para que as máquinas possam funcionar", disse ele, referindo-se aos dos riscos diante de eventual precipitação de julgamento de atos. "O funcionário arrisca-se o tempo todo a tomar decisões porque tem de tomar decisões", disse ele. "Sabe Deus como essas decisões vão ser interpretadas por terceiros, de boa ou de má-fé, pouco importa." Há, segundo Fernando Henrique, um sentido de cobrança muito grande. "O que mostra que precisamos, exatamente por isso, ter uma maior capacidade de desempenho para podermos responder àqueles que, com justas razões, têm certas dúvidas sobre a nossa capacidade, enquanto membros das administrações, para realizarmos o que é necessário que se realize."
"Dispomos de um conjunto de pessoas absoutamente capazes, dedicadas e competentes e que levam o governo para adiante", disse ele, admitindo a existência de uma massa "que não está, talvez, motivada e treinada suficientemente".
Numa mensagem de otimismo, Fernando Henrique lembrou que o Brasil passou por transformações, como a estabilidade da moeda e as "consequências de um País adormecido com a inflação". Mas
segundo ele, agora é momento de ver o Estado, o governo prestando bons serviços e o País desenvolvendo-se economicamente e melhorando socialmente.
"Gostaria que o milênio que se inicia agora, dentro de poucos dias, venha a ser marcado crescentemente por essa preocupação", disse ele. "Uma preocupação qualitativa, no sentido de produzir uma nova sociedade, produzir um novo governo
uma nova forma de o governo incentivar as ações da sociedade e prestar a ela os serviços necessários e que permita que exista uma sociedade mais feliz e mais contente com seu próprio desempenho e também com o desempenho daqueles que estão sendo pagos por ela para cuidarem de seus interesses, como é o caso de todos nós aqui."

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